
Sempre achei tão egocêntricas e fúteis aquelas pessoas que não falavam de outra coisa se não sites de relacionamento e Messenger. Pensava, “por isso mesmo que nunca vou me render a isso”. Mas para uma jovem de 16 anos que está sozinha em uma cidade grande como Curitiba, sem amigos e com muitas saudades dos que ficaram em sua cidade natal, o orgulho de se render à internet, não era nada. E foi assim que tudo começou. Com a internet, que no princípio foi pensada a fim de aproximar duas amigas que não se viam há meses (e mais parecia uma eternidade). Aliás, é impressionante a quantidade de antigos amigos e conhecidos que se pode reencontrar na internet. Neste caso, abro um parêntese para aquelas antigas rivais que tiveram filhos cedo demais e ficaram gordas, ou ainda as que eram super lindas quando novas e se tornaram verdadeiras “mocréias”. Vai dizer que não é ótimo ver tudo isso? Enfim, o caso aqui é namoro, relacionamento a dois, eu e ele. Conhecem um site chamado Orkut? Pergunto pois com esse tal de Facebook, muitos não chegaram a conhecê-lo, e eu, bem... sempre lembrarei dele como grande amigo.
O ano era 2007. Eu tinha acabado de ganhar meu primeiro computador e ainda usava internet discada, aquela, onde tinha que desconectar o cabo da linha telefônica para usar a internet e vice-versa. Tinha 17 anos. No dia em que registrei a conta no tal do Orkut, adorei. Comecei a pesquisar pelo nome das pessoas que não via há tempos, as encontrava e isso era o máximo! O mês era janeiro. Morava no Bairro Xaxim, por isso entrei na comunidade [do Orkut] chamada “Boqueirão-Alto Boqueirão-Xaxim” (três bairros muitos próximos na cidade). Ele é o dono dessa comunidade e me “adicionou”. Deixou-me uma mensagem dizendo que havia se identificado com meu gosto musical e não sei mais o que. Eu o aceitei, fingi que acreditei nesse papo de gosto musical e ficamos por isso mesmo, durante algumas semanas. No dia do aniversário dele, 21 de fevereiro (ainda de 2007, claro), foi a primeira vez que nos “falamos” pela internet. Dei-lhe os parabéns no Messenger e conversamos por alguns minutos. Alguns dias depois minha situação financeira melhorou e comecei a usar a maravilhosa internet banda larga. Eu e ele começamos a conversar com mais frequência e sobre tudo, todos. Qualquer assunto! E olha que não faltava assunto...
Primeiro fato que diferencia nossa história de outras: eu não estava interessada nele. Não da mesma forma que ele estava interessado em mim. Aliás, eu estava apaixonada por um garoto do colégio, afinal, caso não tenham percebido, eu ainda estava no colégio (3º ano do Ensino Médio), e ele já tinha 21 anos. Pois bem, esse garoto do colégio era tão ou mais tímido que eu. Não me telefonava. Raramente falava comigo pela internet e não tinha coragem de conhecer minha família, como eu assim desejava. Tudo isso, aliado à atenção e à companhia perfeita que ele era para mim naquele momento, me fizeram pensar se eu realmente gostava do garoto do colégio. O fato de eu preferir ficar na internet conversando com ele, ao invés de me encontrar com o garoto do colégio pesara muito na decisão que cheguei a tomar, afinal, qual garota de 17 anos que não gostaria de receber atenção, carinho e amizade do garoto que gosta? E ainda por cima, dar muitas risadas com ele? Eu queria! E sejamos sinceros, eu já não gostava mais do garoto do colégio. Perto dele, o garoto do colégio era apenas um garoto. Na verdade, senti pena do garoto do colégio e, caso este garoto algum dia leia isso, queria que soubesse que essa pena que senti não foi por mal, muito menos intencional. Senti pena porque nos poucos dias que ficamos juntos (cerca de um mês) eu o conheci bem e percebi que era um garoto bom, de coração e sentimentos bons, embora fosse tímido demais para demonstrar isso – fato que pesou bastante no nosso término. Mas estamos aqui para falar dele. Quando ele soube que eu havia terminado com o garoto do colégio, finalmente sentiu-se à vontade para se declarar – pela internet – e eu me senti a vontade para me declarar a ele. Chorei litros e ouvimos, simultaneamente, a música “Linger”, da banda “The Cranberries”, a “nossa” música, até hoje. Essa foi a primeira vez que chorei por ele. Um choro de felicidade e de alívio também. Alívio pela sensação de estar livre para encontrá-lo pessoalmente. Não lembro exatamente qual foi esse dia, mas acreditamos que tenha sido em maio de 2007, três meses depois da nossa primeira “conversa” pelo MSN.
O fato é que em junho, no dia 21 (esse dia eu me lembro muito bem...) fomos um ao encontro do outro em um shopping de Curitiba. Eu estava com calça jeans e uma blusa comprida azul que hoje não me serve mais. Ele estava de calça caqui clara e camiseta preta. Veio ao meu encontro e a primeira coisa que pensei foi, “achei que ele fosse mais alto”. Fomos até a fila do cinema, onde acabamos comprando ingressos para assistir “Shrek 3”. Ainda na fila, ele realizou aquela clássica “manobra” de espreguiçar-se e “disfarçadamente” colocar o braço direito ou esquerdo sobre meu ombro. Disfarçadamente, eu tirei o braço dele. E a gente ri disso até hoje... Eu era tão tímida quanto você possa imaginar! Ainda assim, neste dia nos beijamos, nos abraçamos e aquele sentimento de medo foi embora. Medo de que ele não fosse o que parecia ser quando conversávamos nas tardes pela internet e medo de que eu não conseguisse ser eu mesma diante dele pessoalmente. Cheguei em casa naquela noite, deitei na cama e pensei no dia que veria ele novamente. Esperei... O fim de semana não demorou a chegar, afinal, 21 de junho de 2007 foi uma quinta-feira. Passamos a nos ver com frequência e, alguns dias depois, conheci a família dele. No dia 1º de julho, ele me pediu em namoro e no dia 19 ou 20, não recordo muito bem, conheceu a minha família.
A partir daí foram viagens feitas juntos, passeios, novos sabores, novas sensações, experiências compartilhas e sonhos divididos. Algumas brigas, claro. Impossível quem não brigue, ainda mais em quatro anos de namoro. Dizem os mais velhos que quem ama, briga. Mas chegamos à conclusão de que não serão esses 10% de brigas no nosso relacionamento que atrapalharão a nossa vida ou nos farão desistir de viver juntos para sempre. A forma como nos conhecemos. A maneira como nos amamos, nos “encaixamos” e nos damos bem é indescritível. Até hoje penso, por exemplo, que na época a comunidade dele tinha bem mais que dois mil membros, embora ele tivesse uns 150 amigos, no máximo. Por que ele me escolheu? Ele não sabe responder essa pergunta... Fica sem saber, assim como eu. Por que me senti tão bem com alguém que nem conhecia? Como é possível eu achar ele cada vez mais bonito e não enjoar do cheiro dele?
Não é uma determinada quantidade de letras ou uma determinada forma de escrever que vai conseguir descrever o que sinto quando estou perto dele. Quando, no frio, deitamos debaixo das cobertas e nos beijamos os olhos. Ou, quando no verão, andamos pelo centro de mãos dadas olhando as pessoas e sentindo o vento soprar os cabelos. Lembro do começo do namoro, quando ele ainda nem tinha carro e andava de ônibus comigo. Um dia, ao nos despedirmos, ele soltou um silencioso “eu te amo” de longe e só eu pude ouvir, embora o terminal estivesse cheio. Isso, e a maneira como ele beija minha mão direita – da mesma forma que fez há 4 anos, no primeiro dia – faz com que eu lembre que o amor existe e que fui escolhida para compartilhar esse turbilhão de sentimentos que se encontram em um só. Nosso destino daqui para frente? Não sabemos, embora tenhamos planos e idéias. Decidimos deixar por conta do acaso, afinal, ele foi tão bom conosco, não é?