sábado, 14 de dezembro de 2013

Página virada

Se em 2012 transformações foi a palavra do ano, em 2013 essa palavra foi decepções. Digo "foi", pois 2013 é página virada, já era. Foi um ano suportado, arrastado, vivido por obrigação. Ao mesmo tempo - e é curioso - foi o ano em que mais me diverti. Conheci tanta gente. Ainda assim, arrisco dizer que foram, de longe, os 12 meses mais difíceis da minha vida. Um ano baseado em: desistir. Desisti de planos e de pessoas. Deixei de lado o foco e sobrevivi cada mês com um desafio novo e penoso. Muitas pessoas me decepcionaram (e tão fundo!), mas talvez, penso, eu tenha esperado demais delas. Talvez, penso, eu tenha criado expectativas que jamais poderiam ser alcançadas, pois elas não eram bem como eu imaginava. Profissionalmente, foi o melhor ano da minha vida. Prazer, reconhecimento, satisfação pessoal...tudo isso me fez perceber como eu acertei na vida quando escolhi Jornalismo. E mesmo tendo adotado o Vicente - que é o hoje o ser que eu mais amo nesse mundo - 2013 me deixou muitas marcas ruins. Quantas vezes eu chorei? Quanto tempo desperdicei com coisas banais? Quanta energia joguei fora com o ócio? Espero aproveitar melhor cada minuto de 2014 e encontrar na vida pessoas que sejam reais, verdadeiras, leais e amigas. Eu sei que elas existem. Eu tive o prazer de conviver com uma delas por 5 anos.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A carta

Nesta semana, minha melhor amiga completou 24 anos. Desde que a conheci, o dia 19 de novembro nunca mais foi o mesmo. Por que ela é a melhor é assunto pra outro post. Hoje vou falar sobre o aniversário dela - o 19 de novembro de alguns anos atrás. Havia um menino (sempre há) que a encantava. Na verdade, ele encantava meio colégio, mas por alguma razão inexplicada, ela era muito mais atingida pelos cabelos loiros e  o jeito grunge à lá Kurt Cobain do rapaz. Ele era indiferente. Indiferente às meninas que suspiravam ao vê-lo, alheio ao colégio, alheio ao fato de estar em uma escola nova, em uma cidade nova, sem qualquer amigo ou inimigo. E estava bem com isso, de verdade. Talvez tenha sido justamente esse o elemento que a atraiu: o fato de que ele era "sozinho". Talvez, quem sabe, ele pudesse se juntar a nós? Com o tempo, nos aproximamos dele e dá pra dizer que nos tornamos suas amigas. 

Alguns meses depois, porém, ele sumiu. Não ia mais ao colégio. Desapareceu das ruas. 

Eu ali, curiosa. Ela lá, morrendo por dentro. Descobrimos que ele havia voltado pro Rio Grande do Sul - e não nos falou nada. Apesar de silenciosa, a tristeza dela era visível e a minha confusão mental só crescia. Por que sumir assim? Não deu pra se despedir? Ele vai voltar? Alguns dias antes do aniversário dela - o 19 de novembro de anos atrás - cansei. Cansei de ficar no "e se" e cheia de perguntas. Me enchi de coragem e fui até a casa dos avós dele, onde ele morou. Uma senhora veio em minha direção. Expliquei que era amiga do seu neto e gostaria de me comunicar com ele, por carta, mas que ele havia ido embora tão rápido que não consegui pegar o endereço. Ela pediu que eu esperasse, entrou em casa e voltou alguns minutos depois, com um envelope nas mãos. "Minha filha, mãe dele, me enviou essa carta. Aqui tem o endereço. Pode ficar contigo", ela disse, enquanto eu tocava, com uma empolgação gigante, cada selo colado naquele papel. Agradeci, dei as costas a e saí às ruas com o pedaço de papel mais importante que eu tinha.


Em casa, a dúvida era: o que fazer com ele? Pretendia dá-lo de presente pra ela, mas e se ela não fizesse nada com aquela informação, por medo, vergonha? Na dúvida, fiz o que mais gosto de fazer nessa vida: escrevi. Em muitas e muitas linhas de raiva, escrevi sobre como ele havia nos decepcionado e sobre como ele era burro por não perceber que bem ali, do seu lado, havia uma garota incrível. Uma garota que se apaixonou na primeira vez que o viu, em meio à neblina, 7 horas da manhã. Enviei a carta pelo correio e decidi contar à ela apenas no dia do seu aniversário, quando eu lhe entregasse o envelope com o endereço. E bom, foi difícil, mas consegui me segurar. Pelo menos até o dia antes da data. Estávamos na sala de aula, aguardando a professora entrar, quando ela me contou o sonho que teve. "Você me dava uma carta, com o endereço dele, e eu estava muito feliz". Me arrepiei inteira e, chocada, contei o que havia feito. Entreguei o envelope e me livrei daquele peso de esconder algo dela (e de carregar algo que, eu sabia, a faria muito feliz). No dia seguinte - o 19 de novembro de anos atrás - estávamos em sua casa, almoçando, quando o telefone tocou. Era ele. Sim, eu passei os contatos dela e disse que, em breve, ela faria aniversário. Sim, foi o melhor presente dela naquele ano. E sim, me senti a melhor pessoa do mundo ao vê-la ali, atordoada por ter escutado a voz dele. 

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

O último encontro


Ela tomava banho e, enquanto a água descia por cada parte do seu corpo, olhava pela pequena janela fechada e imaginava se ainda estaria calor lá fora. Na verdade, não queria saber. Cada segundo debaixo d'água era aproveitado, sugado, não queria sair dali. O chuveiro era bom, mas o que a segurava realmente eram a vergonha e o medo. Fechou os olhos, aproveitou aquela enxurrada forte nas costas e repassou mentalmente cada minuto e cada sensação sentidos momentos antes, quando se encontraram. Do outro lado da porta, no cômodo ao lado, ele a esperava. Porém, havia algo muito mais cruel à sua espera: a realidade. Sair dali significava voltar à vida normal, à invisibilidade, ao esconderijo. Sair dali significava um "adeus" que ela não queria pronunciar. Sair dali significava enfrentar o fato de que jamais seria escolhida, afinal, nem sequer chegou um dia a ser uma opção. O registro do chuveiro foi fechado e a passos lentos e pacientes ela secou o corpo, ainda arrepiado e marcado com cada toque dele. Voltou ao quarto e o encontrou sentado, à sua espera, de cabeça baixa e com o pensamento aparentemente longe. Essa cena era comum cada vez que se encontravam e ela não se importava com isso, desde que ele estivesse ali com ela integralmente, desde que se entregasse ao momento que tinham e viviam. Ele se levantou a tempo de vê-la soltar os longos cabelos e, instintivamente, deixou escapar alguma expressão feliz de surpresa, algo como um "uau". Um calor gostoso tomou conta do seu rosto e ela se limitou a ruborizar. Se apaixonou. Esse foi seu maior erro. No instante em que descobriu que estava apaixonada, soube: um último encontro já estava traçado, fadado a acontecer em breve. O cheiro dele ainda era presente quando ela chegou em casa e, em meio às lágrimas, percebeu que aquele havia sido o último encontro.

domingo, 20 de outubro de 2013

O melhor dia da vida deles

Sim, os noivos (foto: Dani Starck)
Faz calor em Curitiba. Um calor fora do comum. É dia de trabalho extra. Tem casamento no restaurante. Minhas tarefas são: recepcionar os convidados, servir bebidas e anotar os pedidos. Duas horas após o início da recepção e só tenho feito matar a sede do povo encalorado. Reponho água nas taças vazias, sirvo entre vinho tinto e branco, espumante e suco, Coca-Cola e gelo, só o gelo, só a Coca-Cola, mais água, mais vinho. Meu telefone toca insistentemente no bolso da calça. Não tenho tempo de olhar. Respiro entre o tempo da garrafa de vinho branco ser aberta e da taça ser pega. Troco uma ou duas palavras com o DJ carioca. Sirvo um convidado que, às 14 horas, já se encontra animado demais. Dou meia volta, sorrio. Outro convidado acena, faz sinal pra taça de espumante vazia. Na cabeça, uma sequência se repete pra que eu não me esqueça (mais água na 11 e guaraná na 17 e trocar talheres também e pedir pro Felipe encontrar a chave perdida da janela e ligar o ar-condicionado). Será que alguém me vê?

A música silencia. Todos param. Em frente à cabine do DJ, a noiva tem a atenção do restaurante lotado. Todos olham. Eu paro. Respiro. São segundos sem fazer nada, sem precisar servir e atender. Segundos de um silêncio mais que bem-vindo. Agora, apenas o som da campainha da cozinha, avisando que algum prato está pronto. Mas todos pararam. Tudo parou. Isso pode esperar. O noivo fala. Ele treme, gagueja. É fofo. Tem piercing na orelha, um par de tênis nos pés e um amor que transcende o brilho daquele olhar direcionado à ela. Agradece a presença dos parentes, amigos. Agradece a ajuda da (fada) madrinha que organizou a festa. É tudo clichê. É tudo mais do mesmo. "Chega logo, 17 horas", desejo mentalmente. Ele se vira pra noiva, agora sua mulher, e a agradece. Agradece pela amizade, pelo respeito, por "ter me escolhido, entre tantas pessoas, pra te ver acordar todo dia", pela sensação maravilhosa de poder contar com alguém e ter isso ali, espontaneamente; agradece à vida por tê-la conhecido, pelo café nas noites em que passava acordado trabalhando, por uma existência tão essencial à vida, por ser responsável pelo início da sua família e por muitas outras graças. 


Então, nas lágrimas caindo dos meus olhos úmidos, esqueço o cansaço, a dor nos pés e o sono. Me sinto privilegiada por participar do dia mais feliz da vida deles. Me emociono por sentir o amor assim tão perto de mim.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Carregar minhas próprias sacolas


"Ficar solteiro não é bom, mas também não é ruim. Abrem-se muitas possibilidades", disse um amigo, enquanto conversávamos sobre relacionamentos e o quanto não estamos preparados pra isso. Eu, por exemplo, acho mais prático ser solteira. Não tenho paciência de explicar ou justificar cada passo dado, me cansa rápido a obrigação de cuidar de cada um dos meus atos pra não magoar alguém e, o principal: não tenho nenhuma certeza sobre minhas vontades. Hoje eu gosto de você, mas amanhã provavelmente vá gostar mais, ou menos, ou não vá gostar. Nessas oscilações, alguém pode se magoar. É mais fácil ser sozinha e evitar tudo isso. Namorar requer um empenho que não tenho e, o principal, requer exclusividade a alguém. Por enquanto, uma pessoa só não me basta. Talvez, tenho pensado, isso acontece porque, até hoje, ninguém me bastou. Sempre faltou algo. Ao mesmo tempo, por mais incrível que possa parecer, me sinto completa quanto estou sozinha e posso aproveitar as milhares de oportunidades que a vida oferece a cada dia. Ao contrário do que acontece quando estou com alguém, e me sinto totalmente sufocada - e incompleta, com a sensação de que me falta algo (de fato, falta a minha liberdade). Sou covarde também, admito. Não tenho coragem (ou talvez disposição) pra encarar as consequências de um relacionamento, como as "obrigações". Gosto de considerar um namoro como um freela que me foi proposto. "Não topo, não senhor, pois não vou dar conta de cumprir o combinado". Simples. Sem choro. 

Hoje, a melhor sensação do mundo é carregar minhas próprias sacolas do mercado. Caminhar na direção que eu quero, dormir no lado preferido da cama, ligar ou não ligar, sair ou não sair e, o mais bacana, mudar de opinião a qualquer hora. Sem consultar ninguém. Sem par-ou-ímpar nem dúvidas - a não ser as minhas. 

domingo, 29 de setembro de 2013

Escorregando outra vez


É uma sucessão de enganos, de "quase's", de equívocos, de mergulhos intensos e solitários. Tão difícil encontrar alguém que vá tão fundo quanto eu e ao mesmo tempo, na mesma intensidade, com as mesmas intenções. Alguém que conjugue mais o verbo fazer e menos o verbo falar. Alguém que me enxergue em primeiro plano. Que não tema. Que não jogue. Que apenas viva cada oportunidade e as aproveite, ao meu lado. Que se entregue, que seja pleno e total. Não é possessão, tampouco egoísmo. Não quero alguém SÓ MEU, mas quero alguém que, enquanto estiver comigo, seja apenas meu. A garota segura um balão e o deixa escorregar de suas mãos. Ela nunca consegue segurá-lo pelo tempo que deseja. Quando se dá conta, ele se foi, levando consigo toda a leveza e a graça de uma sensação nova. É uma cena boba, mas se repete cada vez mais na minha vida. Vejo escorregando outra vez a chance de amar. Tantas relações, tantos nomes, casos, conhecidos e nenhum, no entanto, me fez amar de novo. Sinto falta da amizade, da companhia, das conversas e dos momentos seguros e gostosos que fazem parte do amor. Sinto falta dele: o amor verdadeiro e natural. Estou disponível pra você. Vem, amor, tem lugar pra você na minha vida nova.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Como foi o seu ano?


Essa era eu, há um ano. Era só o primeiro dia (como tentava me lembrar naquele tweet) e, mesmo sabendo disso, achava que nunca ia ser feliz de novo. Até acordar.

Acordei. O ano finalmente passou. Os primeiros meses? De dor alucinante. De uma solidão cruel e uma sensação terrível de vergonha própria. Sempre temi a solidão. Geminiana típica, dizia: meu maior medo é ficar sozinha. Que ironia, hein? Almocei, jantei e lanchei muitos dias sozinha, em restaurantes, shoppings. Algumas vezes, encontrei a praça de alimentação lotada e me propus a dividir a mesa com alguém. Perguntas como "o que uma moça como você está fazendo aqui, comendo sozinha?" foram frequentes no início. Engraçado como é difícil para as pessoas entenderem que essa pode ser uma opção. Por vezes também surgia alguém a fim de dividir a mesa comigo, criticar meu vício ao telefone e jogar um ou dois papinhos furados pra tentar conseguir meu telefone. Um saco. Fui pra balada sozinha, sabia? Foram noites engraçadas. Ah, passei muito mal, várias vezes. Acho que nunca vomitei tanto na minha vida. Dias de trabalho só possíveis graças a um balde de café. Mas também encontrei bons amigos, que cuidaram de mim no seu lugar. Eu senti a sua falta, confesso. Senti sua falta nos primeiros cafés da manhã solitários. Senti falta da sua racionalidade muitas vezes. Falta do seu "calma, tenha paciência". Cada vez que alguém disse "você parece perdida" eu senti sua falta - e isso aconteceu com bastante frequência, como você pode imaginar. Cada elogio que recebi no trabalho, senti vontade de te contar. Senti falta das suas confirmações sobre minhas irritações "não ligue, ele é um idiota mesmo". Senti falta de você nas duas vezes que fiquei doente, sem ninguém pra buscar um copo d'água e verificar o termômetro. Viajei, não tanto quanto gostaria, mas lembrei de você muitas vezes. E sabe, na verdade, descobri que não sou sozinha no mundo e que estava dando pouco valor a quem realmente sempre estará do meu lado - como a minha família. Aliás, as meninas perguntaram muito por você no início - Amabylli não entendia onde você estava que não do meu lado. Foi bem difícil. Ainda hoje a vó continua gostando muito de você (queria que soubesse disso). E eu continuo adorando seus avós, embora não me considere mais parte da vida deles - como eles ainda acreditam.
Você me acostumou mal. Pra me libertar, tive que aprender a viver de novo. No caminho, também aprendi a amar e a sofrer. Voltei aos 13 anos, sabe. Senti borbotas no estômago, sofri por paixão não correspondida, sofri por magoar quem estava disposto a me amar, mas também amei, me arrepiei dos pés à cabeça, mergulhei de cabeça muitas vezes e fui feliz. Lembra quando eu disse que precisava conhecer outras pessoas? Eu conheci, de fato, muitas pessoas. Muitas mesmo. Meninos e meninas. E foi legal. Alguns foram ruins, admito. Outros foram bons e uns poucos maravilhosos. Mas é tudo tão diferente. E frustrante. Sempre faltou algo. Ninguém conseguiu chegar perto do que você foi pra mim. Faltou carinho, faltou preocupação, faltou amizade, faltou rir das mesmas coisas que eu, faltou uma consideração melhor na maior parte das vezes e faltou algo que não soube identificar. Mas sempre faltou. Com isso tudo, infelizmente constatei aquilo que muitos me disseram no primeiro dia: a vida de solteira é ótima, mas não vale a pena trocá-la por uma relação sólida e sincera. Porém, não éramos tão sólidos assim, né? Eu precisava disso e hoje reconheço ainda mais a importância desse um ano. Eu precisava conhecer outras pessoas, me magoar, chorar pela rejeição de alguém, voltar a sofrer por amor e constatar que não é fácil encontrar alguém como você. Eu não me arrependo não. Eu fiz exatamente o que precisava ser feito. Foi a melhor decisão que tomei. Te deixei livre também. Aposto que conheceu tantas pessoas quanto eu e espero que um dia a gente possa se encontrar com a bandeira branca erguida. Talvez não me reconheça. Eu não sou mais a mesma. Não me arrependo desse ano, de forma alguma. Eu precisava passar por cada um desses 365 dias pra reconhecer a importância de um verdadeiro sentimento.


Acordei.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Pelo direito de começar pela parte mais gostosa


Minha avó conta que no tempo em que namorava meu avô o namoro baseava-se em sentar um ao lado do outro e trocar duas ou três palavras por encontro. Pegar na mão era certeza de arrepios sequenciais que duravam dias. Com o tempo e a conquista da liberdade do corpo, o inocente encontro no sofá da sala evoluiu para passeios no parque, idas ao cinema, jantares à luz de vela, namoros no portão de casa, no carro, atrás do muro da escola...E ainda assim, após tantas transformações, a sociedade insiste em condenar ao ostracismo quem transa no primeiro encontro. Em qual lugar na bíblia da moral e dos bons costumes está escrito que se torna vagabunda aquela que sede ao tesão logo de cara? Não seriam mais verdadeiras e sinceras as mulheres que demonstram com ações as suas reais vontades? Não somos mais obrigadas a suportar entrada e prato principal, se o que queremos mesmo é a sobremesa. Não somos obrigadas a cumprir o roteiro nupcial pré-determinado pelo senso comum. Não mais. Hoje temos a liberdade de ceder aos desejos, ao tesão, à vontade de se entregar a um cara desconhecido sem ter a obrigação de saber o que ele faz da vida. Da mesma forma, não acho menos honrosa a guria que faz isso e acho ridículo quem imagina que ela não é capaz de assumir compromisso, como outra mulher qualquer. Li pesquisas que indicam: o fato de ter rolado ou não no primeiro encontro não influencia na continuidade do relacionamento. Até porque, se a entrada e o prato principal forem ruins, pouco importa se a sobremesa é deliciosa. Afinal, os relacionamentos pra mim são como uma refeição. A sobremesa é a parte mais deliciosa. Entrada e prato principal são as fases pelas quais é preciso passar até chegar à sobremesa. A questão aqui é começar pela parte mais gostosa. Apenas faça, como diz a música.


"The only thing I know for sure. Is what I wan' do" ♪

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Hoje sonhei com você


Você estava igual àquele domingo. Tinha o mesmo sorriso cínico e olhar inquisidor. A mesma voz trêmula e o mesmo jeito incerto de virar o rosto. Engraçado ter te reconhecido depois de tanto tempo sem te ver. Como esquecer, porém, o rosto daquele que destruiu a minha vida. O rosto de quem virou do avesso tudo o que eu tinha. Como quem procura uma moeda esquecida no casaco velho, você procurou em mim qualquer fraqueza. E encontrou muitas. E obrigada. Você transformou minha vida e a mudança foi boa. Que ironia. Agradecer por ter destruído quem eu era. Mas sabe, hoje eu sonhei com você e incrível, mas você era o mesmo. Sorria meio de lado e a beijava. Sua noiva, aliás, era linda. Loira, alegre e com um olhar de ternura. Me viu e sorriu como uma amiga querida. Ali percebi que ela não o conhecia tão bem. Coitada. Em um instante, estavam na cama, deitados. Ela adormeceu. Você continuava a me olhar sobre o corpo da mulher ao seu lado. E ria, naquele jeito provocador e irritante. Por vezes sedutor. Você era o mesmo. Mas ela não era sua noiva, era sua esposa. Seu nome não era o que eu conhecia, era outro. E então conclui que você realmente continuava o mesmo: um perfeito mentiroso.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Café com leite

Vou contar uma história pra vocês (na verdade hoje serão várias histórias). Quando éramos crianças, eu e minha irmã mais velha íamos à escola juntas, com algumas vizinhas da nossa idade, e passávamos todos os dias em frente ao trabalho da minha mãe - que era caminho do colégio. Eu devia ter uns 10 anos quando esse fato aconteceu. Em um desses dias normais, enquanto passávamos pelo trabalho da minha mãe, ela me parou - eu vinha à frente do "grupinho" com uma coleguinha - e pediu que eu fosse a uma lanchonete comprar uma Coca-Cola pra ela. Olhei pra trás e disse "ah mãe, pede pra Cindy [minha irmã]". Ao que minha irmã imediatamente respondeu "pode deixar, mãe, eu vou lá comprar". Segui pra escola com as outras meninas e minha irmã e uma amiga foram até a lanchonete. Não sei se antes ou depois de comprar o refrigerante, minha irmã foi atropelada. Quando soube só conseguia pensar "era pra ter sido eu", enquanto minha mãe dizia "não era pra ser você, era pra ser a Cindy, porque você não ia aguentar". Os anos passaram. Eu cresci, estudei, me formei, trabalhei, saí de casa, hoje pago minhas contas e, ainda assim, minha família continua a me tratar como aquela menina que não ia aguentar ser atropelada, o "café com leite" do vôlei - sabe, aquele jogador fraco, cuja equipe grita "pega leve" e, no meu caso, cujos problemas são escondidos. Tanto minha irmã quanto minha mãe têm o péssimo costume de me esconder seus problemas. Certa vez, eu estava comendo pipoca em frente à TV, quando a colega de trabalho da minha mãe me ligou. Disse que estava preocupada com ela, pois ela havia chorado durante o trabalho e dito que se sentia sozinha e mal (ela teve depressão). Por cerca de 30 minutos aquela estranha falou ao telefone sem que eu a interrompesse em nenhum instante. Eu chorei, chorei e não conseguia parar de chorar. Ela pediu que eu ligasse pra minha mãe e conversasse com ela, numa boa, como quem não quer nada, apenas conversa fiada e desligou. Aquela mulher estranha sabia muito mais dos problemas da minha mãe do que eu. Isso me incomodou absurdamente e me destruiu por dentro. Pensei: "que bosta de filha que eu sou". Nesse dia percebi como ainda estava alheia aos problemas da minha família e como precisava mostrar (principalmente às duas) que não era mais a menina de 10 anos medrosa e fraquinha. Sempre telefonei, pedi conselhos, chorei ao telefone e gritei socorro. Hoje, não faço mais isso e me viro do avesso pra resolver todos os meus problemas sozinha. Não quero mostrar que sou forte: eu me tornei forte. Não sou orgulhosa nem ingrata, pois sei que mesmo depois de todos os erros e fracassos eu terei para onde voltar. Minha mãe é complicada (qual não é?). Dois dias convivendo com ela e vou do ódio ao amor. Mas tem algo nela que sempre me impressionou: a capacidade de me apoiar em tudo. No primeiro dia de faculdade muitos colegas diziam que os pais não gostaram deles terem escolhido Jornalismo e pediam que mudassem pra Direito, Medicina, Administração. Minha mãe estranhou minha opção, mas dizia "vai em frente" e, mesmo sem muito conhecimento, pesquisava, me ajudava e voltava pra casa todo dia com alguma novidade sobre o curso "fulana disse que eles ensinam isso; ciclano disse que é importante você ler bastante e sobre tudo". Quando decidi sair de casa ela achou cedo, pediu que eu esperasse mais. Eu disse que estava na hora e era minha decisão final. Ela foi até uma loja e comprou geladeira, fogão, mesa e micro-ondas. "Presentes pra sua vida nova", ela disse. Antes tivesse escutado seus conselhos. Sim, era cedo demais. Sim, eu deveria ter esperado. Sim, não deu certo. Eu errei, errei feio. Tive vergonha, mas fui sincera. Chorei diante dela, estava na rua, novamente sem nada, com uma mão na frente e a outra atrás, como costumam dizer. Ela não me condenou, não me atirou pedras, apenas disse "essa sempre será sua casa, você sempre vai ter pra onde voltar". Mas não era mais a "minha casa". Eu já não pertencia mais àquele lugar e não me permitiria voltar ao zero depois dela ter se orgulhado tanto de mim. Entenda, minha mãe não é do tipo que diz "eu te amo, filha". Ela é mais do tipo que liga pra vó, irmã, pai e amigas pra contar que ganhei uma bolsa de estudos; que consegui o primeiro estágio na área e que mudei de emprego em cada uma das sete vezes que mudei de emprego. Minha mãe é do tipo que esconde qualquer problema só pra não preocupar. Que diz que está bem, quando não está. Que ouve seu choro ao telefone e diz: "filha, você não é sozinha nesse mundo". Acho que ela sempre vai me tratar como "café com leite", afinal, é isso que os pais fazem, né?

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Quando as pessoas morrem


Existem várias teorias sobre a morte. Cada pessoa tem a sua. Eu tenho a minha e você pode considerá-la nada convencional. Acredito que, para morrer, a pessoa pode continuar viva. Explico. Nos últimos anos, três pessoas morreram para mim, no entanto, ainda estão vivas, trabalhando, respirando, convivendo neste mundo como tantas outras. Mas para mim, morreram. Cada uma delas, algum dia, teve minha confiança, minha amizade, meu colo pra chorar, meus abraços pra consolar, tudo o que há de bom em mim, disponível 100%. Ao mesmo tempo, cada uma delas, algum dia, me magoou intensamente e decepcionou. Morreram para mim. Veja bem, não é por mal, é automático. Não sou orgulhosa - quem me dera ser. Quando erro, busco a desculpa e o perdão assim que reconheço o erro. Ligo, mando e-mails, berro, ajoelho (se preciso for) e imploro. Porém, quando efetivamente o erro é seu, não espere que eu corra atrás. Não mesmo. Aliás, talvez aí esteja meu erro, de fato: esperar algo diferente de você. Não meço, não analiso, não penso, apenas faço. Apenas mato você em mim. Já se tornou inerente a qualquer vontade. Consequência da decepção. Entenda: me decepcionou fundo, já era. É como confiança quebrada, difícil de reaver. É radical? É exagerado? É demais? Pode ser. Pode não ser. Sou assim. E sou assim desde quando percebi o poder das pessoas de machucar e fazer mal. Escolhi matá-las dentro de mim como forma de defesa. Sem existir, não há como elas me machucarem mais. Certo? Sou assim. É minha personalidade.


domingo, 9 de junho de 2013

Saber esperar.

Aos 15 anos minha maior vontade era que o tempo passasse rápido. Aqueles eram tempos difíceis, dos quais, talvez, um dia eu fale por aqui. Eu não via a hora de que os 18 anos chegassem e, com eles, a falsa sensação de que, a partir daquela idade, tudo seria possível e permitido. Hoje meu desejo é reverso. Sonho com dias mais longos, semanas mais demoradas. Não tenho aqueles 15 anos cheios de expectativas e a cada novo mês percebo como o tempo passa, e tem voado. Na última quarta-feira, completei 23 anos. Vinte e três rápidos anos e, sabe, tenho medo de envelhecer. Além de todas as consequências naturais dos anos, temo pela proximidade do fim da vida, em virtude da velocidade assustadora do tempo. No dia do meu último aniversário, recebi a seguinte mensagem de um ex-professor.

"Greyci,
Quem passa o tempo batalhando contra o envelhecimento, sempre será infeliz, porque o envelhecimento é inevitável. Por isso, é preciso descobrir o que existe de bom, verdadeiro e belo em cada fase de nossa vida. Rubem Alves ensina que a vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente. Tomando emprestadas palavras de Victor Hugo desejo que você, sendo jovem, não amadureça depressa demais e, sendo maduro, não insista em rejuvenescer, e que sendo velho, não se dedique ao desespero. Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e é preciso que eles escorram entre nós. Parabéns. Seja feliz!"

Ele me conhece, só não imaginava tanto assim. Bingo. Aproveitar cada fase e saber reconhecer o que há de melhor em cada uma. Aceitar que aos 15 anos não é normal procurar emprego e ficar fora de casa até às cinco da manhã, embora assim você desejasse; entender que nem todos os jovens aos 18 anos tiram a carteira de habilitação, embora haja uma tradição sem sentido sobre isso. Aceitar as condições de cada idade, compreender o tempo... Alguém sempre me dizia "calma, espere, um dia você também vai ter as noites livres como eu e ganhar um salário melhor, assim como eu, mas agora é hora de estudar, ganhar pouco, juntar experiência, se dedicar". Era mesmo. E é perturbador constatar como ele geralmente tinha razão sobre as questões relacionadas ao tempo. O segredo sempre foi esperar. Ter paciência e aproveitar as vantagens do presente e o que está dentro desse limite. Tão certo, hein?


"Peço-te o prazer legítimo e o movimento preciso...quando o tempo for propício".

quarta-feira, 22 de maio de 2013

domingo, 19 de maio de 2013

Como uma droga. Como o fogo.

Além do álcool, ela nunca havia experimentado qualquer droga, no entanto, tinha certeza que aquela era exatamente a sensação que uma substância química provocava. Euforia, sensação de grandiosidade, aumento da autoconfiança, da energia e da libido, redução do apetite, prazer. Assim como sua mãe lhe alertava, aos 13 anos, sobre não consumir drogas, ela sabia, todos lhe alertavam: era preciso evitá-lo. Porém, desde o primeiro contato, percebeu como era involuntariamente viciante. Como um fósforo riscado e jogado sobre querosene. Fogo incontrolável. Como imã. Atração instantânea. Como droga. Viciante. Um dia só não bastava. Uma hora apenas era insuficiente. A sensação era absorvida por cada célula do corpo como uma esponja absorve a água, como o girassol absorve a luz do sol. Completamente. Mas após os efeitos bons, vinha a condenação interna, a sensação de culpa, de revolta, de fraqueza. Estava consumindo algo explicitamente proibido, previamente temido e sendo consumida por isso. Um flashback, um pensamento: é errado. Ela tentou curar-se, largar o vício, evitar o contato, aceitar que apesar de boa e maravilhosa, era ocasional e lentamente destruidora em um organismo receptivamente carente. Mas já estava viciada. Precisava daquilo. Ocupava horas do dia na euforia e excitação, pensando em como ter de novo, mesmo sabendo que não podia, não devia, não merecia a dependência. Tentava lembrar disso a cada manhã de segunda e a cada impulso de enviar uma mensagem. No duelo, a vontade vencia a certeza de perigo, mas sua capacidade de discernir era maior. Decidiu pelo "certo", não mais feliz, embora soubesse que dali alguns dias, semanas e meses, esta seria sim a opção mais feliz. Mas foi fraca. Mais de uma vez. Houveram recaídas: bons momentos de vulnerabilidade e alegria interna, paralelos a frustrações e um sentimento de submissão (submissão aos desejos). Se tornou um ciclo. Um ciclo que ela não queria para si. Aceitou isso e buscou livrar-se. Tal qual um tratamento de dependência química, a reabilitação exigia superar várias etapas, e a primeira delas já havia sido conquistada: motivação. Desfazer a negação e reconhecer os prejuízos que aquilo lhe trazia. A segunda das etapas consistia em se desintoxicar, se abster daquilo, cortar completamente o consumo - o contato. Consequentemente, a abstinência envolvia efeitos colaterais, como sonhos mais frequentes, sensação de agonia, inquietação, irritabilidade, uma fissura intensa por aquilo e alucinações. Lembranças daquelas sensações surgiam com frequência, em todos os lugares, a qualquer hora. Sentia cheiros, ouvia vozes e percebeu o quão viciada estava. Mas precisava e queria passar por essa etapa. Uma vez tendo acreditado que a venceu, seguiu a última delas, dita como a real reabilitação. Precisava se esforçar para manter a motivação e prevenir a recaída - a ressocialização. Socializou. Seguiu a vida, mas não conseguia se livrar da vontade, daquela sensação de tudo sendo absorvido sem esforço, por vontade própria. Não deixava de pensar naquelas sensações, no toque, no beijo, nas risadas, no cheiro, na conversa, no cabelo, na despretensiosidade de tudo, na voz. Percebeu como, apesar de errado e inútil, eram sensações boas e que as pessoas deveriam viver. Mas não daquele jeito. Sentiu-se triste, pois apesar de errado, era sincero, era verdadeiro e era perfeito quando acontecia. Entorpecente. Tinha pena, raiva. Achava um desperdício aquelas sensações intensas serem resumidas a nada. Por outro lado, era certo que elas não a levariam a lugar algum, senão o de alguém vulnerável. Não se sabe quanto tempo a dependência vai durar. Não se sabe quantas vezes será preciso hesitar, afinal, tal qual uma droga, viciou e se tornou meio loucura. Porém, o fogo não é diferente dos outros. Ele se extingue. Mas não até que cada faísca seja apagada.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Saudade é uma cadeira vazia no café da manhã.

A cada recomeço acho que será mais fácil. Mas nunca é. A saudade sempre incomoda nos primeiros dias, nas primeiras semanas e, às vezes, até durante os primeiros meses. Hoje acordei com ela grudada em mim. Voltei há alguns meses, quando me sentei na mesma mesa e tomei o café da manhã, pela primeira vez sozinha, num lugar estranho. Não lembro o que comi, só lembro de lágrimas. Só lembro da sensação assustadora de estar sozinha. Engraçado. Na loucura que se tornou a minha vida nos últimos meses, ficar sozinha foi a novidade mais surpreendente. Aquilo que dizem sobre "se conhecer, se gostar, se sentir mais segura", acreditem, tudo isso é verdade. Não há melhor autoajuda do que viver sozinha. Sem dependências, sem muletas, sem alguém pra criticar suas escolhas ou reclamar de suas manias. Mesmo assim, uma saudade imensa me abraçou nesta manhã. Sentada à mesa, com Vicente no colo, abri a manteiga e lembrei. Lembrei de como há alguns meses meus buracos na margarina o incomodavam. Lembrei de como ele deslizava sutilmente a faca para consertar meus estragos. Como eu ria da mania estúpida e sem sentido que me repreendia todas as manhãs. Também lembrei da mesa bamba e caída, que me incomodava; dos elogios sobre o café; das conversas aleatórias sobre contas e compromissos. E, por alguns segundos, senti falta de tudo isso. Veio uma saudade dessa época tranquila, em que eu tinha certeza sobre tudo - ou achava que tinha. De quando eu tinha a segurança de um sentimento sincero e puro; a satisfação de agir, sem hesitar; a despreocupação de amar. Embora, eu saiba, a sutileza dele não foi suficiente para consertar meus maiores estragos.

Saudade, sua danada, surge tão inesperada. Uma música, uma mesa, um café, um aroma, um pote de margarina...No fim do dia, descobri que saudade é uma cadeira vazia. 


"só levo a saudade morena, é tudo que vale a pena."

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Adeus, você.


Quantas vezes você já disse adeus? À uma fase, uma amizade, uma cidade, um vício, uma coisa tão boa que é incapaz de classificar? Estive pensando sobre o adeus e conclui que não percebemos, mas ele está muito presente. É como se a cada dia tivéssemos que dar adeus a algo ou alguém. O atendente simpático da agência bancária perto do seu trabalho. Vai continuar lá pra sempre? Vai vê-lo novamente? Adeus! Aquele pedaço de bolo cremoso e açucarado, que derreteu logo no início da sua boca. Vai conseguir provar outro dia? Adeus! Um olhar aqui, um cabelo colocado atrás da orelha, uma rajada de vento que faz seu vestido balançar, uma frase bem colocada, um beijo sintonizado. Adeus, tudo. A cada passo e a cada segundo, somos obrigados a dar adeus a algo, novo ou velho. E nem sempre há tempo de se despedir. Geralmente, aliás, não conseguimos enxergar a linha tênue entre o "até mais" e o "adeus". E acabamos por atravessá-la sem saber. O que sobra é uma frustração absurda por não ter se demorado mais naquele abraço e naquele cheiro. Mas a verdade é que a gente nunca sabe. Acho que é por isso que pregam o "viva cada segundo como se fosse o último". De fato, ele pode ser o último. E nem sempre interferimos nisso. Eu já disse adeus tantas vezes, e sempre de uma forma manca, sem saber se fiz direito. Mas quem sabe dizer adeus como se deve? Como se deve dizer adeus? Se deve dizer adeus? E aquele adeus que não queremos dar. Como faz com ele? Dizer adeus nem sempre é bom. Tem sido ruim por aqui, mas também tem sido necessário. O pior não é nem dizer adeus, mas lidar com a consequência automática do adeus: a saudade. Adeus aí, você.


"às vezes é mais saudável chegar ao fim, chegar ao fim."

domingo, 21 de abril de 2013

Ex-bicho do mato

Se fosse contar, ninguém acreditaria. Se dissessem há 20 anos que hoje eu seria assim, minha mãe não acreditaria. Sempre fui bicho do mato. Gostava de brincar sozinha. Falava sozinha. Assustava meus avós - que achavam que eu era louca. Não respondia as chamadas no primário. Não pedia para ir ao banheiro e fazia xixi nas calças todo dia por conta disso. Chorava se tivesse que falar em público. Era uma criança obediente e educada, mas muda, completamente introspectiva. E não era menos feliz por isso, pelo contrário. Minha alegria era brincar sozinha, manipular as bonecas conforme eu queria, fazer as vozes que mais me agradavam, criar os dramas imaginários entre Barbie e Ken. Eu tinha 15 anos quando decidi que faria Jornalismo. Minha mãe deu risada "você? bicho do mato assim?". Pensei no quanto seria difícil e na possibilidade de, talvez, não ser feliz com isso. Mas nunca cogitei outro curso, outra coisa. Sempre foi Jornalismo. Ainda bem. Eu era uma menina quando entrei na faculdade e saí uma pessoa totalmente diferente quatro anos depois. Antes e durante a faculdade a timidez vivia me atrapalhando. Me horrorizava a ideia de chegar sozinha a algum lugar, chamar o garçom em um restaurante, pedir informação a um estranho na rua, falar ao telefone com um desconhecido. Sim, é absurdo. Não bastasse meu conflito interno, era repreendida pelos que estavam ao meu lado. "Onde já se viu? Para com isso! Não vou chamar coisa nenhuma, chama você! Você tem que aprender!". E aprendi. As turmas pequenas na faculdade me ajudaram. Apresentar um trabalho para um grupo de colegas e um professor bacana ajudou. Ler em voz alta, aparecer no vídeo, ouvir minha voz no rádio, ir às ruas e abordar as pessoas para as entrevistas, agendar pautas por telefone. A Comunicação Social me obrigou a ser social. Com o tempo e a prática, se tornou fácil conversar com pessoas. Analisando de longe, hoje vejo que a introspecção era também uma forma de me manter anônima, invisível e passar despercebida pelos lugares. Sempre odiei chamar a atenção. Mas não raro os holofotes se viravam pra mim por algum motivo que eu não provocava. Por exemplo, eu era boa aluna. Sempre fui, da pré-escola à faculdade. Sem querer, isso fazia eu me destacar. Da 1ª à 5ª série ganhei muitas medalhas de honra ao mérito. Era uma exposição dolorida pra mim. Na formatura da 8ª série ganhei uma homenagem, como a melhor aluna da turma. Imaginem pais, professores, familiares e todos os alunos do colégio me olhando. Desci do palco com uma flor na mão e algumas lágrimas de vergonha no rosto. Perdi a conta de quantas vezes na vida me neguei a fazer algo com o fraco argumento "tenho vergonha". E quem me conhece de verdade sabe que ainda hoje tenho meus momentos bicho do mato. A diferença é que hoje eles não me impedem de viver. É claro que tenho vergonha de conhecer alguém novo, conversar com um grande jornalista ou uma grande personalidade, chegar a uma festa e receber olhares maliciosos, receber um elogio. Mas sempre coloco em prática o conselho recebido nos primeiros meses de faculdade: "pega a vergonha e pendura no cabideiro do banheiro, lá na sua casa".

domingo, 14 de abril de 2013

Sobre a coragem dos homens

Todo mundo tem uma lista de pessoas preferidas, não tem? Eu tenho. Minhas pessoas preferidas mudam, mas sempre podem ser contadas com duas mãos.  Minha avó materna é uma delas, e meu avô também. Ele não está mais "aqui", mas continua na lista, inclusive, está no topo dela, como a minha pessoa preferida no mundo. Eu fui criada pelos dois desde sempre, até os nove anos. Tudo o que aprendi sobre valores, educação, respeito, pessoas; todas as minhas qualidades e defeitos devo a eles. E me impressiono com o fato de que sempre é enriquecedor conversar com a minha vó. Hoje, discutimos sobre a coragem dos homens. Eu acredito que as mulheres são mais corajosas e os homens geralmente medrosos. Pelo que vivi, vejo e ouço falar, os homens, em geral, são acomodados e têm medo de acabar com algo duradouro e estável pela falsa segurança que isso proporciona, seja um emprego, um relacionamento, uma forma de viver... Enquanto a mulher tem mais coragem de apagar tudo e começar do zero. E ela descordou. Contou sua visão. Disse que os jovens hoje não têm paciência pra manter nada. Em suma, é mais fácil desistir de tudo ao invés de tentar consertar o que não dá mais certo. Em partes, acho verdade e me assustei com isso, pois sempre fiz isso. Com empregos, principalmente. Quando já não me agradava por algum motivo, me concentrava em achar outro e cair fora. Foi o que fiz por cinco vezes. Em relacionamentos também.  Preferi desistir, ao invés de tentar. Mas em nenhum dos casos me arrependo e é por isso que discordo da minha vó. Nem sempre o caminho mais difícil é o mais feliz. Assim como nem sempre o mais fácil é o pior. E quem disse que é mesmo fácil? Não acho fácil desistir da falsa sensação de segurança que um emprego ou relacionamento longo proporciona. Tudo, na verdade, é uma grande surpresa. Porém, só a vive quem arrisca. Na conversa, ela também contou sobre como meu avô sempre esteve ao lado dela em tempos difíceis, pobres. Em como foi difícil viver com ele em sua fase alcoólatra e em como ele viajava por cidades só pra vê-la quando namoravam. Só consegui dizer "queria que alguém fizesse isso por mim algum dia". Sabe? Fizesse algo que pudesse me proporcionar aquela sensação de ser importante para alguém.

domingo, 7 de abril de 2013

Quando troquei as bonecas por borboletas no estômago

Dia desses sonhei com o primeiro menino que eu gostei na vida. Isso me fez relembrar o quanto eu sofri (dramaticamente) ao 13 anos de idade. No sonho, ele dirigia um carro e eu estava no carona. A gente se beijava e não era bom. Na verdade, era bem ruim e isso é engraçado, porque nos beijamos apenas uma vez e eu fiquei pelo menos dois anos pensando nele, gostando dele e querendo que aquele beijo tivesse se repetido. Imaginava como poderia ser bom ficar com ele mais do que apenas aquela noite, como ele era bom, como era atencioso comigo e como nossas vidas tinham a mesma dose de drama. Mas tudo foi só por uma noite. Poderia ter sido mais, poderia ter ido além, mas eu não quis e me arrependi durante dois anos. Olhando o Facebook dele, vejo aquele mesmo menino de 15 anos, só que com um gosto musical pior e um corpo mais evoluído. Não sinto nada além de saudade dos 13 anos, do tempo que eu tinha e não dava valor, de dormir na casa da Fer depois de assistir nossos amigos tocando numa garagem, das bebedeiras na praça e de como tudo era simples e muito divertido. Embora hoje sinta arrependimento por ter "sofrido" tanto por tão pouca coisa, e tão nova. Aos 13 anos eu já trocava as bonecas por borboletas no estômago e arrepios inesperados. 

segunda-feira, 25 de março de 2013

Exatamente aonde eu deveria estar

Há dias em que nas mais estranhas situações paro pra analisar a minha vida hoje. Andando de ônibus. Em devaneios no silêncio durante o almoço. Andando na rua, a caminho de qualquer lugar. E então, percebo como cada decisão tomada, como cada passo dado, como cada escolha feita me trouxe até aqui. Cada estágio que topei fazer por uma merreca. Cada lágrima que derramei e cada palavra de raiva que gritei no abafar do travesseiro em desespero. Cada parte da cidade que conheci ao me perder, à procura de estágios, empregos. Cada pessoa que conheci, ao longo da vida. Tudo isso me ajudou a estar aqui. Minha instabilidade profissional. Os meses tidos como perdidos. Os almoços à base de bolacha. As moedas contadas pro lanche. É como se cada dificuldade, e cada alegria, me guiasse para um futuro bacana e quase perfeito, que é o meu presente. Uma vida sem depender de ninguém. Um emprego maravilhoso. Um estado de espírito de pleno amor próprio. Mesmo aquela fase em que tudo parecia conspirar contra, quando a vida que eu tinha literalmente desapareceu ao amanhecer. Mesmo esta fase colaborou para eu estar aqui. E aos outros, culpo a rotina. Em frente ao espelho, culpo ele. Internamente, sei que sou a única culpada. Fui fraca. Tive medo. Fui injusta. Magoei. E não dei chance. Escolhi o desconhecido. Escolhi a singularidade. Escolhi conhecer outros e acabei por me conhecer. Escolhi não magoar mais. Escolhi lá, escolho agora e sempre vou escolher isso. Não magoar. Estando sozinha, é mais fácil mantê-la. Uma escolha que, assim como tantas outras, me fez estar exatamente aonde eu deveria estar. E aonde, mesmo que não seja, estou e me sinto a pessoa mais satisfeita do mundo. 

domingo, 3 de março de 2013

Sempre quis ter um menino

Minha mãe conta que, quando eu tinha uns 3 anos, ela me ensinava a comer sozinha da seguinte forma: estendia uma toalha no chão, me sentava e colocava o prato e a colher diante de mim. Com muita sujeira e paciência, eu conseguia comer, mas "desperdiçava" boa parte da refeição oferecendo as cachorros da minha vó. Minha mãe conta que eu chamava todos eles para "almoçarem" comigo. De repente, era eu, em uma versão mini, cercada por cachorros comendo minha comida e me lambendo. 

Durante muito tempo eu fiquei me perguntando quando foi que essa menina dos cachorros deixou de existir. Lá em Joinville, nós tínhamos o Fofinho - que de fofo não tinha nada. Um cachorro guapeca que pegamos recém-nascido e morreu com uns 20 anos. Aliás, quando ele morreu eu já morava em Curitiba e fiquei sabendo muito tempo depois. Enfim. O Fofinho foi o mais próximo de um animal de estimação que eu tive. Mas ele não era do tipo que vinha pedir carinho. Era do tipo que me fazia sentir protegida. Do tipo que todos tinham medo, mas abanava o rabo e se enroscava entre minhas pernas quando eu chegava do colégio. Aos 9 anos pedi um cachorro "só meu" à minha mãe. O Timão. Ele era minha responsabilidade, mas coitado, eu só sabia brincar com ele, nunca trocava a água ou abastecia a ração ou dava banho. Aí, minha mãe tomou ele de mim e deu para o meu tio, que o tem em casa até hoje - e ele está enorme.

O Fofinho foi minha exceção. Ele eu conheci desde sempre e nunca tive medo. E o medo sempre foi um problema na minha infância. Eu tinha medo da maioria das brincadeiras e também dos animais. Medo de ser mordida, de cair do muro e me machucar, medo de cair da árvore e ainda levar uma surra da vó... Por isso, deixava de fazer muitas coisas (inclusive subir em árvore, nunca subi!) por medo. Mesmo hoje, com o Jack, o cachorro enorme que temos lá no meu trabalho, eu ainda tenho medo. Esse medo fez com que eu preferisse me afastar dos animais, eu acho. E foi assim até então. Até o Vicente. 

Eu sempre quis ter um menino, justamente pelo fato da minha família ser predominantemente feminina. Sempre achei os gatos lindos, mas, como disse, evitava pegá-los por medo de ser arranhada e tudo mais. Por algum tempo eu visitava sempre duas gatinhas: a Pimentinha e a Princesa. Gostava de visitá-las aos domingos. Quando uma delas "engravidou", pensei em pegar um filhote pra mim, mas tinha dó de deixá-lo o dia todo sozinho em casa. E aí considerei outros animais, um pouco mais independentes, como peixe e chinchila. E a ideia morreu com 2012.

Este ano, depois de todas as mudanças recentes e intensas que aconteceram na minha vida, me senti tão dura, tão fria e um pouco sozinha. Queria ter alguém pra compartilhar carinho e me preocupar, no fim das contas. Semana passada foi quando conheci o Vicente que, inclusive, nem tinha esse nome. Mas quando o vi eu tinha certeza que ele era o meu Vicente. 

Há alguns anos conheci um menininho lindo, gentil, educado e fofo, cujo nome era Vicente. Ele ia cortar o cabelinho no salão em que eu trabalhava e, sempre que o via, eu dizia pra mim mesma "quero um Vicente assim algum dia". Se ainda não é possível na forma humana, que seja na felina. E, no fim das contas, acho que acertei. Esse Vicente é tão fofo, lindo, gentil e educado (sim, educado), quanto o Vicente que conheci em 2008 - e que hoje deve estar um homenzinho. 

Só espero, no meio dessa brincadeira toda, me tornar uma boa amiga ao Vicente. Ser menos medrosa. Menos nojenta. Mais carinhosa e afetuosa. Mais humana. 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Enfim, 2013.


Comecei essa "tentativa de retrospectiva" há uns quatro dias e, só para variar, resolvi terminar algo incompleto;


Na onda das retrospectivas típicas nesta época do ano, resolvi colocar “no papel” a minha retrospectiva pessoal, tentando ao máximo ser impessoal (se é que é possível). Nessa mesma data do ano passado, imaginava um 2012 transformador, libertador e com acontecimentos decisivos. De fato, tudo isso aconteceu. Porém, nem de longe foi como eu havia imaginado lá atrás. Sim, finalmente tirei minha carteira de motorista, mas não foi tão libertador como eu imaginava. Tenho um documento e é só.
Ao final de 2011 eu trabalhava em um lugar e ao longo de 2012 passei por outros dois. Mas isso só fez comprovar a minha instabilidade profissional. Nestes três lugares conheci pessoas que pretendo manter ao meu lado por toda a vida. E essa é a minha grande conquista de 2012: as amizades. Ao mesmo tempo, ganhei uma nova sobrinha, linda, saudável e graciosa. Luiza veio ao mundo trazendo mais alegria à minha família.
Mas 2012 também foi um ano de perdas. Perdi a confiança em algumas pessoas. Perdi a fé muitas vezes. Perdi uma pessoa querida de forma abrupta e violenta. Perdi horas demais na Internet. Perdi tempo com preocupações banais e novelas. Desisti de algo certo para recomeçar, do zero. Decepcionei. Fui decepcionada. Porém, não quero e não vou tratar da separação como uma perda, pois não foi.
Dancei. Suei. Conheci um mundo novo, completamente novo. Um mundo livre e independente, no qual estou sozinha e (acredite) feliz. Aprendi (acho) a dar valor aos que realmente estão comigo. Estou aprendendo a aproveitar a vida...
Um colega me perguntou quais são meus planos para 2013. Vou repetir o que disse a ele: fazer mais exercícios, me organizar e estabilizar financeiramente, focar no inglês e me divertir muito mais. "E encontrar um amor”, ele completou. Bem, isso não é algo que me preocupa. Talvez aos 30 anos eu me desespere, mas não agora. Até porque ninguém “encontra” o amor, ele simplesmente surge, te pega, te cega, te amarra. Vamos aguardar.