Há dias em que nas mais estranhas situações paro pra analisar a minha vida hoje. Andando de ônibus. Em devaneios no silêncio durante o almoço. Andando na rua, a caminho de qualquer lugar. E então, percebo como cada decisão tomada, como cada passo dado, como cada escolha feita me trouxe até aqui. Cada estágio que topei fazer por uma merreca. Cada lágrima que derramei e cada palavra de raiva que gritei no abafar do travesseiro em desespero. Cada parte da cidade que conheci ao me perder, à procura de estágios, empregos. Cada pessoa que conheci, ao longo da vida. Tudo isso me ajudou a estar aqui. Minha instabilidade profissional. Os meses tidos como perdidos. Os almoços à base de bolacha. As moedas contadas pro lanche. É como se cada dificuldade, e cada alegria, me guiasse para um futuro bacana e quase perfeito, que é o meu presente. Uma vida sem depender de ninguém. Um emprego maravilhoso. Um estado de espírito de pleno amor próprio. Mesmo aquela fase em que tudo parecia conspirar contra, quando a vida que eu tinha literalmente desapareceu ao amanhecer. Mesmo esta fase colaborou para eu estar aqui. E aos outros, culpo a rotina. Em frente ao espelho, culpo ele. Internamente, sei que sou a única culpada. Fui fraca. Tive medo. Fui injusta. Magoei. E não dei chance. Escolhi o desconhecido. Escolhi a singularidade. Escolhi conhecer outros e acabei por me conhecer. Escolhi não magoar mais. Escolhi lá, escolho agora e sempre vou escolher isso. Não magoar. Estando sozinha, é mais fácil mantê-la. Uma escolha que, assim como tantas outras, me fez estar exatamente aonde eu deveria estar. E aonde, mesmo que não seja, estou e me sinto a pessoa mais satisfeita do mundo.
segunda-feira, 25 de março de 2013
domingo, 3 de março de 2013
Sempre quis ter um menino
Minha mãe conta que, quando eu tinha uns 3 anos, ela me ensinava a comer sozinha da seguinte forma: estendia uma toalha no chão, me sentava e colocava o prato e a colher diante de mim. Com muita sujeira e paciência, eu conseguia comer, mas "desperdiçava" boa parte da refeição oferecendo as cachorros da minha vó. Minha mãe conta que eu chamava todos eles para "almoçarem" comigo. De repente, era eu, em uma versão mini, cercada por cachorros comendo minha comida e me lambendo.
Durante muito tempo eu fiquei me perguntando quando foi que essa menina dos cachorros deixou de existir. Lá em Joinville, nós tínhamos o Fofinho - que de fofo não tinha nada. Um cachorro guapeca que pegamos recém-nascido e morreu com uns 20 anos. Aliás, quando ele morreu eu já morava em Curitiba e fiquei sabendo muito tempo depois. Enfim. O Fofinho foi o mais próximo de um animal de estimação que eu tive. Mas ele não era do tipo que vinha pedir carinho. Era do tipo que me fazia sentir protegida. Do tipo que todos tinham medo, mas abanava o rabo e se enroscava entre minhas pernas quando eu chegava do colégio. Aos 9 anos pedi um cachorro "só meu" à minha mãe. O Timão. Ele era minha responsabilidade, mas coitado, eu só sabia brincar com ele, nunca trocava a água ou abastecia a ração ou dava banho. Aí, minha mãe tomou ele de mim e deu para o meu tio, que o tem em casa até hoje - e ele está enorme.
O Fofinho foi minha exceção. Ele eu conheci desde sempre e nunca tive medo. E o medo sempre foi um problema na minha infância. Eu tinha medo da maioria das brincadeiras e também dos animais. Medo de ser mordida, de cair do muro e me machucar, medo de cair da árvore e ainda levar uma surra da vó... Por isso, deixava de fazer muitas coisas (inclusive subir em árvore, nunca subi!) por medo. Mesmo hoje, com o Jack, o cachorro enorme que temos lá no meu trabalho, eu ainda tenho medo. Esse medo fez com que eu preferisse me afastar dos animais, eu acho. E foi assim até então. Até o Vicente.
Eu sempre quis ter um menino, justamente pelo fato da minha família ser predominantemente feminina. Sempre achei os gatos lindos, mas, como disse, evitava pegá-los por medo de ser arranhada e tudo mais. Por algum tempo eu visitava sempre duas gatinhas: a Pimentinha e a Princesa. Gostava de visitá-las aos domingos. Quando uma delas "engravidou", pensei em pegar um filhote pra mim, mas tinha dó de deixá-lo o dia todo sozinho em casa. E aí considerei outros animais, um pouco mais independentes, como peixe e chinchila. E a ideia morreu com 2012.
Este ano, depois de todas as mudanças recentes e intensas que aconteceram na minha vida, me senti tão dura, tão fria e um pouco sozinha. Queria ter alguém pra compartilhar carinho e me preocupar, no fim das contas. Semana passada foi quando conheci o Vicente que, inclusive, nem tinha esse nome. Mas quando o vi eu tinha certeza que ele era o meu Vicente.
Há alguns anos conheci um menininho lindo, gentil, educado e fofo, cujo nome era Vicente. Ele ia cortar o cabelinho no salão em que eu trabalhava e, sempre que o via, eu dizia pra mim mesma "quero um Vicente assim algum dia". Se ainda não é possível na forma humana, que seja na felina. E, no fim das contas, acho que acertei. Esse Vicente é tão fofo, lindo, gentil e educado (sim, educado), quanto o Vicente que conheci em 2008 - e que hoje deve estar um homenzinho.
Só espero, no meio dessa brincadeira toda, me tornar uma boa amiga ao Vicente. Ser menos medrosa. Menos nojenta. Mais carinhosa e afetuosa. Mais humana.
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