A cada recomeço acho que será mais fácil. Mas nunca é. A saudade sempre incomoda nos primeiros dias, nas primeiras semanas e, às vezes, até durante os primeiros meses. Hoje acordei com ela grudada em mim. Voltei há alguns meses, quando me sentei na mesma mesa e tomei o café da manhã, pela primeira vez sozinha, num lugar estranho. Não lembro o que comi, só lembro de lágrimas. Só lembro da sensação assustadora de estar sozinha. Engraçado. Na loucura que se tornou a minha vida nos últimos meses, ficar sozinha foi a novidade mais surpreendente. Aquilo que dizem sobre "se conhecer, se gostar, se sentir mais segura", acreditem, tudo isso é verdade. Não há melhor autoajuda do que viver sozinha. Sem dependências, sem muletas, sem alguém pra criticar suas escolhas ou reclamar de suas manias. Mesmo assim, uma saudade imensa me abraçou nesta manhã. Sentada à mesa, com Vicente no colo, abri a manteiga e lembrei. Lembrei de como há alguns meses meus buracos na margarina o incomodavam. Lembrei de como ele deslizava sutilmente a faca para consertar meus estragos. Como eu ria da mania estúpida e sem sentido que me repreendia todas as manhãs. Também lembrei da mesa bamba e caída, que me incomodava; dos elogios sobre o café; das conversas aleatórias sobre contas e compromissos. E, por alguns segundos, senti falta de tudo isso. Veio uma saudade dessa época tranquila, em que eu tinha certeza sobre tudo - ou achava que tinha. De quando eu tinha a segurança de um sentimento sincero e puro; a satisfação de agir, sem hesitar; a despreocupação de amar. Embora, eu saiba, a sutileza dele não foi suficiente para consertar meus maiores estragos.
Saudade, sua danada, surge tão inesperada. Uma música, uma mesa, um café, um aroma, um pote de margarina...No fim do dia, descobri que saudade é uma cadeira vazia.
"só levo a saudade morena, é tudo que vale a pena."




