quarta-feira, 24 de abril de 2013

Saudade é uma cadeira vazia no café da manhã.

A cada recomeço acho que será mais fácil. Mas nunca é. A saudade sempre incomoda nos primeiros dias, nas primeiras semanas e, às vezes, até durante os primeiros meses. Hoje acordei com ela grudada em mim. Voltei há alguns meses, quando me sentei na mesma mesa e tomei o café da manhã, pela primeira vez sozinha, num lugar estranho. Não lembro o que comi, só lembro de lágrimas. Só lembro da sensação assustadora de estar sozinha. Engraçado. Na loucura que se tornou a minha vida nos últimos meses, ficar sozinha foi a novidade mais surpreendente. Aquilo que dizem sobre "se conhecer, se gostar, se sentir mais segura", acreditem, tudo isso é verdade. Não há melhor autoajuda do que viver sozinha. Sem dependências, sem muletas, sem alguém pra criticar suas escolhas ou reclamar de suas manias. Mesmo assim, uma saudade imensa me abraçou nesta manhã. Sentada à mesa, com Vicente no colo, abri a manteiga e lembrei. Lembrei de como há alguns meses meus buracos na margarina o incomodavam. Lembrei de como ele deslizava sutilmente a faca para consertar meus estragos. Como eu ria da mania estúpida e sem sentido que me repreendia todas as manhãs. Também lembrei da mesa bamba e caída, que me incomodava; dos elogios sobre o café; das conversas aleatórias sobre contas e compromissos. E, por alguns segundos, senti falta de tudo isso. Veio uma saudade dessa época tranquila, em que eu tinha certeza sobre tudo - ou achava que tinha. De quando eu tinha a segurança de um sentimento sincero e puro; a satisfação de agir, sem hesitar; a despreocupação de amar. Embora, eu saiba, a sutileza dele não foi suficiente para consertar meus maiores estragos.

Saudade, sua danada, surge tão inesperada. Uma música, uma mesa, um café, um aroma, um pote de margarina...No fim do dia, descobri que saudade é uma cadeira vazia. 


"só levo a saudade morena, é tudo que vale a pena."

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Adeus, você.


Quantas vezes você já disse adeus? À uma fase, uma amizade, uma cidade, um vício, uma coisa tão boa que é incapaz de classificar? Estive pensando sobre o adeus e conclui que não percebemos, mas ele está muito presente. É como se a cada dia tivéssemos que dar adeus a algo ou alguém. O atendente simpático da agência bancária perto do seu trabalho. Vai continuar lá pra sempre? Vai vê-lo novamente? Adeus! Aquele pedaço de bolo cremoso e açucarado, que derreteu logo no início da sua boca. Vai conseguir provar outro dia? Adeus! Um olhar aqui, um cabelo colocado atrás da orelha, uma rajada de vento que faz seu vestido balançar, uma frase bem colocada, um beijo sintonizado. Adeus, tudo. A cada passo e a cada segundo, somos obrigados a dar adeus a algo, novo ou velho. E nem sempre há tempo de se despedir. Geralmente, aliás, não conseguimos enxergar a linha tênue entre o "até mais" e o "adeus". E acabamos por atravessá-la sem saber. O que sobra é uma frustração absurda por não ter se demorado mais naquele abraço e naquele cheiro. Mas a verdade é que a gente nunca sabe. Acho que é por isso que pregam o "viva cada segundo como se fosse o último". De fato, ele pode ser o último. E nem sempre interferimos nisso. Eu já disse adeus tantas vezes, e sempre de uma forma manca, sem saber se fiz direito. Mas quem sabe dizer adeus como se deve? Como se deve dizer adeus? Se deve dizer adeus? E aquele adeus que não queremos dar. Como faz com ele? Dizer adeus nem sempre é bom. Tem sido ruim por aqui, mas também tem sido necessário. O pior não é nem dizer adeus, mas lidar com a consequência automática do adeus: a saudade. Adeus aí, você.


"às vezes é mais saudável chegar ao fim, chegar ao fim."

domingo, 21 de abril de 2013

Ex-bicho do mato

Se fosse contar, ninguém acreditaria. Se dissessem há 20 anos que hoje eu seria assim, minha mãe não acreditaria. Sempre fui bicho do mato. Gostava de brincar sozinha. Falava sozinha. Assustava meus avós - que achavam que eu era louca. Não respondia as chamadas no primário. Não pedia para ir ao banheiro e fazia xixi nas calças todo dia por conta disso. Chorava se tivesse que falar em público. Era uma criança obediente e educada, mas muda, completamente introspectiva. E não era menos feliz por isso, pelo contrário. Minha alegria era brincar sozinha, manipular as bonecas conforme eu queria, fazer as vozes que mais me agradavam, criar os dramas imaginários entre Barbie e Ken. Eu tinha 15 anos quando decidi que faria Jornalismo. Minha mãe deu risada "você? bicho do mato assim?". Pensei no quanto seria difícil e na possibilidade de, talvez, não ser feliz com isso. Mas nunca cogitei outro curso, outra coisa. Sempre foi Jornalismo. Ainda bem. Eu era uma menina quando entrei na faculdade e saí uma pessoa totalmente diferente quatro anos depois. Antes e durante a faculdade a timidez vivia me atrapalhando. Me horrorizava a ideia de chegar sozinha a algum lugar, chamar o garçom em um restaurante, pedir informação a um estranho na rua, falar ao telefone com um desconhecido. Sim, é absurdo. Não bastasse meu conflito interno, era repreendida pelos que estavam ao meu lado. "Onde já se viu? Para com isso! Não vou chamar coisa nenhuma, chama você! Você tem que aprender!". E aprendi. As turmas pequenas na faculdade me ajudaram. Apresentar um trabalho para um grupo de colegas e um professor bacana ajudou. Ler em voz alta, aparecer no vídeo, ouvir minha voz no rádio, ir às ruas e abordar as pessoas para as entrevistas, agendar pautas por telefone. A Comunicação Social me obrigou a ser social. Com o tempo e a prática, se tornou fácil conversar com pessoas. Analisando de longe, hoje vejo que a introspecção era também uma forma de me manter anônima, invisível e passar despercebida pelos lugares. Sempre odiei chamar a atenção. Mas não raro os holofotes se viravam pra mim por algum motivo que eu não provocava. Por exemplo, eu era boa aluna. Sempre fui, da pré-escola à faculdade. Sem querer, isso fazia eu me destacar. Da 1ª à 5ª série ganhei muitas medalhas de honra ao mérito. Era uma exposição dolorida pra mim. Na formatura da 8ª série ganhei uma homenagem, como a melhor aluna da turma. Imaginem pais, professores, familiares e todos os alunos do colégio me olhando. Desci do palco com uma flor na mão e algumas lágrimas de vergonha no rosto. Perdi a conta de quantas vezes na vida me neguei a fazer algo com o fraco argumento "tenho vergonha". E quem me conhece de verdade sabe que ainda hoje tenho meus momentos bicho do mato. A diferença é que hoje eles não me impedem de viver. É claro que tenho vergonha de conhecer alguém novo, conversar com um grande jornalista ou uma grande personalidade, chegar a uma festa e receber olhares maliciosos, receber um elogio. Mas sempre coloco em prática o conselho recebido nos primeiros meses de faculdade: "pega a vergonha e pendura no cabideiro do banheiro, lá na sua casa".

domingo, 14 de abril de 2013

Sobre a coragem dos homens

Todo mundo tem uma lista de pessoas preferidas, não tem? Eu tenho. Minhas pessoas preferidas mudam, mas sempre podem ser contadas com duas mãos.  Minha avó materna é uma delas, e meu avô também. Ele não está mais "aqui", mas continua na lista, inclusive, está no topo dela, como a minha pessoa preferida no mundo. Eu fui criada pelos dois desde sempre, até os nove anos. Tudo o que aprendi sobre valores, educação, respeito, pessoas; todas as minhas qualidades e defeitos devo a eles. E me impressiono com o fato de que sempre é enriquecedor conversar com a minha vó. Hoje, discutimos sobre a coragem dos homens. Eu acredito que as mulheres são mais corajosas e os homens geralmente medrosos. Pelo que vivi, vejo e ouço falar, os homens, em geral, são acomodados e têm medo de acabar com algo duradouro e estável pela falsa segurança que isso proporciona, seja um emprego, um relacionamento, uma forma de viver... Enquanto a mulher tem mais coragem de apagar tudo e começar do zero. E ela descordou. Contou sua visão. Disse que os jovens hoje não têm paciência pra manter nada. Em suma, é mais fácil desistir de tudo ao invés de tentar consertar o que não dá mais certo. Em partes, acho verdade e me assustei com isso, pois sempre fiz isso. Com empregos, principalmente. Quando já não me agradava por algum motivo, me concentrava em achar outro e cair fora. Foi o que fiz por cinco vezes. Em relacionamentos também.  Preferi desistir, ao invés de tentar. Mas em nenhum dos casos me arrependo e é por isso que discordo da minha vó. Nem sempre o caminho mais difícil é o mais feliz. Assim como nem sempre o mais fácil é o pior. E quem disse que é mesmo fácil? Não acho fácil desistir da falsa sensação de segurança que um emprego ou relacionamento longo proporciona. Tudo, na verdade, é uma grande surpresa. Porém, só a vive quem arrisca. Na conversa, ela também contou sobre como meu avô sempre esteve ao lado dela em tempos difíceis, pobres. Em como foi difícil viver com ele em sua fase alcoólatra e em como ele viajava por cidades só pra vê-la quando namoravam. Só consegui dizer "queria que alguém fizesse isso por mim algum dia". Sabe? Fizesse algo que pudesse me proporcionar aquela sensação de ser importante para alguém.

domingo, 7 de abril de 2013

Quando troquei as bonecas por borboletas no estômago

Dia desses sonhei com o primeiro menino que eu gostei na vida. Isso me fez relembrar o quanto eu sofri (dramaticamente) ao 13 anos de idade. No sonho, ele dirigia um carro e eu estava no carona. A gente se beijava e não era bom. Na verdade, era bem ruim e isso é engraçado, porque nos beijamos apenas uma vez e eu fiquei pelo menos dois anos pensando nele, gostando dele e querendo que aquele beijo tivesse se repetido. Imaginava como poderia ser bom ficar com ele mais do que apenas aquela noite, como ele era bom, como era atencioso comigo e como nossas vidas tinham a mesma dose de drama. Mas tudo foi só por uma noite. Poderia ter sido mais, poderia ter ido além, mas eu não quis e me arrependi durante dois anos. Olhando o Facebook dele, vejo aquele mesmo menino de 15 anos, só que com um gosto musical pior e um corpo mais evoluído. Não sinto nada além de saudade dos 13 anos, do tempo que eu tinha e não dava valor, de dormir na casa da Fer depois de assistir nossos amigos tocando numa garagem, das bebedeiras na praça e de como tudo era simples e muito divertido. Embora hoje sinta arrependimento por ter "sofrido" tanto por tão pouca coisa, e tão nova. Aos 13 anos eu já trocava as bonecas por borboletas no estômago e arrepios inesperados.