domingo, 21 de abril de 2013

Ex-bicho do mato

Se fosse contar, ninguém acreditaria. Se dissessem há 20 anos que hoje eu seria assim, minha mãe não acreditaria. Sempre fui bicho do mato. Gostava de brincar sozinha. Falava sozinha. Assustava meus avós - que achavam que eu era louca. Não respondia as chamadas no primário. Não pedia para ir ao banheiro e fazia xixi nas calças todo dia por conta disso. Chorava se tivesse que falar em público. Era uma criança obediente e educada, mas muda, completamente introspectiva. E não era menos feliz por isso, pelo contrário. Minha alegria era brincar sozinha, manipular as bonecas conforme eu queria, fazer as vozes que mais me agradavam, criar os dramas imaginários entre Barbie e Ken. Eu tinha 15 anos quando decidi que faria Jornalismo. Minha mãe deu risada "você? bicho do mato assim?". Pensei no quanto seria difícil e na possibilidade de, talvez, não ser feliz com isso. Mas nunca cogitei outro curso, outra coisa. Sempre foi Jornalismo. Ainda bem. Eu era uma menina quando entrei na faculdade e saí uma pessoa totalmente diferente quatro anos depois. Antes e durante a faculdade a timidez vivia me atrapalhando. Me horrorizava a ideia de chegar sozinha a algum lugar, chamar o garçom em um restaurante, pedir informação a um estranho na rua, falar ao telefone com um desconhecido. Sim, é absurdo. Não bastasse meu conflito interno, era repreendida pelos que estavam ao meu lado. "Onde já se viu? Para com isso! Não vou chamar coisa nenhuma, chama você! Você tem que aprender!". E aprendi. As turmas pequenas na faculdade me ajudaram. Apresentar um trabalho para um grupo de colegas e um professor bacana ajudou. Ler em voz alta, aparecer no vídeo, ouvir minha voz no rádio, ir às ruas e abordar as pessoas para as entrevistas, agendar pautas por telefone. A Comunicação Social me obrigou a ser social. Com o tempo e a prática, se tornou fácil conversar com pessoas. Analisando de longe, hoje vejo que a introspecção era também uma forma de me manter anônima, invisível e passar despercebida pelos lugares. Sempre odiei chamar a atenção. Mas não raro os holofotes se viravam pra mim por algum motivo que eu não provocava. Por exemplo, eu era boa aluna. Sempre fui, da pré-escola à faculdade. Sem querer, isso fazia eu me destacar. Da 1ª à 5ª série ganhei muitas medalhas de honra ao mérito. Era uma exposição dolorida pra mim. Na formatura da 8ª série ganhei uma homenagem, como a melhor aluna da turma. Imaginem pais, professores, familiares e todos os alunos do colégio me olhando. Desci do palco com uma flor na mão e algumas lágrimas de vergonha no rosto. Perdi a conta de quantas vezes na vida me neguei a fazer algo com o fraco argumento "tenho vergonha". E quem me conhece de verdade sabe que ainda hoje tenho meus momentos bicho do mato. A diferença é que hoje eles não me impedem de viver. É claro que tenho vergonha de conhecer alguém novo, conversar com um grande jornalista ou uma grande personalidade, chegar a uma festa e receber olhares maliciosos, receber um elogio. Mas sempre coloco em prática o conselho recebido nos primeiros meses de faculdade: "pega a vergonha e pendura no cabideiro do banheiro, lá na sua casa".

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