quarta-feira, 22 de maio de 2013

domingo, 19 de maio de 2013

Como uma droga. Como o fogo.

Além do álcool, ela nunca havia experimentado qualquer droga, no entanto, tinha certeza que aquela era exatamente a sensação que uma substância química provocava. Euforia, sensação de grandiosidade, aumento da autoconfiança, da energia e da libido, redução do apetite, prazer. Assim como sua mãe lhe alertava, aos 13 anos, sobre não consumir drogas, ela sabia, todos lhe alertavam: era preciso evitá-lo. Porém, desde o primeiro contato, percebeu como era involuntariamente viciante. Como um fósforo riscado e jogado sobre querosene. Fogo incontrolável. Como imã. Atração instantânea. Como droga. Viciante. Um dia só não bastava. Uma hora apenas era insuficiente. A sensação era absorvida por cada célula do corpo como uma esponja absorve a água, como o girassol absorve a luz do sol. Completamente. Mas após os efeitos bons, vinha a condenação interna, a sensação de culpa, de revolta, de fraqueza. Estava consumindo algo explicitamente proibido, previamente temido e sendo consumida por isso. Um flashback, um pensamento: é errado. Ela tentou curar-se, largar o vício, evitar o contato, aceitar que apesar de boa e maravilhosa, era ocasional e lentamente destruidora em um organismo receptivamente carente. Mas já estava viciada. Precisava daquilo. Ocupava horas do dia na euforia e excitação, pensando em como ter de novo, mesmo sabendo que não podia, não devia, não merecia a dependência. Tentava lembrar disso a cada manhã de segunda e a cada impulso de enviar uma mensagem. No duelo, a vontade vencia a certeza de perigo, mas sua capacidade de discernir era maior. Decidiu pelo "certo", não mais feliz, embora soubesse que dali alguns dias, semanas e meses, esta seria sim a opção mais feliz. Mas foi fraca. Mais de uma vez. Houveram recaídas: bons momentos de vulnerabilidade e alegria interna, paralelos a frustrações e um sentimento de submissão (submissão aos desejos). Se tornou um ciclo. Um ciclo que ela não queria para si. Aceitou isso e buscou livrar-se. Tal qual um tratamento de dependência química, a reabilitação exigia superar várias etapas, e a primeira delas já havia sido conquistada: motivação. Desfazer a negação e reconhecer os prejuízos que aquilo lhe trazia. A segunda das etapas consistia em se desintoxicar, se abster daquilo, cortar completamente o consumo - o contato. Consequentemente, a abstinência envolvia efeitos colaterais, como sonhos mais frequentes, sensação de agonia, inquietação, irritabilidade, uma fissura intensa por aquilo e alucinações. Lembranças daquelas sensações surgiam com frequência, em todos os lugares, a qualquer hora. Sentia cheiros, ouvia vozes e percebeu o quão viciada estava. Mas precisava e queria passar por essa etapa. Uma vez tendo acreditado que a venceu, seguiu a última delas, dita como a real reabilitação. Precisava se esforçar para manter a motivação e prevenir a recaída - a ressocialização. Socializou. Seguiu a vida, mas não conseguia se livrar da vontade, daquela sensação de tudo sendo absorvido sem esforço, por vontade própria. Não deixava de pensar naquelas sensações, no toque, no beijo, nas risadas, no cheiro, na conversa, no cabelo, na despretensiosidade de tudo, na voz. Percebeu como, apesar de errado e inútil, eram sensações boas e que as pessoas deveriam viver. Mas não daquele jeito. Sentiu-se triste, pois apesar de errado, era sincero, era verdadeiro e era perfeito quando acontecia. Entorpecente. Tinha pena, raiva. Achava um desperdício aquelas sensações intensas serem resumidas a nada. Por outro lado, era certo que elas não a levariam a lugar algum, senão o de alguém vulnerável. Não se sabe quanto tempo a dependência vai durar. Não se sabe quantas vezes será preciso hesitar, afinal, tal qual uma droga, viciou e se tornou meio loucura. Porém, o fogo não é diferente dos outros. Ele se extingue. Mas não até que cada faísca seja apagada.