Você estava igual àquele domingo. Tinha o mesmo sorriso cínico e olhar inquisidor. A mesma voz trêmula e o mesmo jeito incerto de virar o rosto. Engraçado ter te reconhecido depois de tanto tempo sem te ver. Como esquecer, porém, o rosto daquele que destruiu a minha vida. O rosto de quem virou do avesso tudo o que eu tinha. Como quem procura uma moeda esquecida no casaco velho, você procurou em mim qualquer fraqueza. E encontrou muitas. E obrigada. Você transformou minha vida e a mudança foi boa. Que ironia. Agradecer por ter destruído quem eu era. Mas sabe, hoje eu sonhei com você e incrível, mas você era o mesmo. Sorria meio de lado e a beijava. Sua noiva, aliás, era linda. Loira, alegre e com um olhar de ternura. Me viu e sorriu como uma amiga querida. Ali percebi que ela não o conhecia tão bem. Coitada. Em um instante, estavam na cama, deitados. Ela adormeceu. Você continuava a me olhar sobre o corpo da mulher ao seu lado. E ria, naquele jeito provocador e irritante. Por vezes sedutor. Você era o mesmo. Mas ela não era sua noiva, era sua esposa. Seu nome não era o que eu conhecia, era outro. E então conclui que você realmente continuava o mesmo: um perfeito mentiroso.

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