Ela tomava banho e, enquanto a água descia por cada parte do seu corpo, olhava pela pequena janela fechada e imaginava se ainda estaria calor lá fora. Na verdade, não queria saber. Cada segundo debaixo d'água era aproveitado, sugado, não queria sair dali. O chuveiro era bom, mas o que a segurava realmente eram a vergonha e o medo. Fechou os olhos, aproveitou aquela enxurrada forte nas costas e repassou mentalmente cada minuto e cada sensação sentidos momentos antes, quando se encontraram. Do outro lado da porta, no cômodo ao lado, ele a esperava. Porém, havia algo muito mais cruel à sua espera: a realidade. Sair dali significava voltar à vida normal, à invisibilidade, ao esconderijo. Sair dali significava um "adeus" que ela não queria pronunciar. Sair dali significava enfrentar o fato de que jamais seria escolhida, afinal, nem sequer chegou um dia a ser uma opção. O registro do chuveiro foi fechado e a passos lentos e pacientes ela secou o corpo, ainda arrepiado e marcado com cada toque dele. Voltou ao quarto e o encontrou sentado, à sua espera, de cabeça baixa e com o pensamento aparentemente longe. Essa cena era comum cada vez que se encontravam e ela não se importava com isso, desde que ele estivesse ali com ela integralmente, desde que se entregasse ao momento que tinham e viviam. Ele se levantou a tempo de vê-la soltar os longos cabelos e, instintivamente, deixou escapar alguma expressão feliz de surpresa, algo como um "uau". Um calor gostoso tomou conta do seu rosto e ela se limitou a ruborizar. Se apaixonou. Esse foi seu maior erro. No instante em que descobriu que estava apaixonada, soube: um último encontro já estava traçado, fadado a acontecer em breve. O cheiro dele ainda era presente quando ela chegou em casa e, em meio às lágrimas, percebeu que aquele havia sido o último encontro.
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
domingo, 20 de outubro de 2013
O melhor dia da vida deles
![]() |
| Sim, os noivos (foto: Dani Starck) |
A música silencia. Todos param. Em frente à cabine do DJ, a noiva tem a atenção do restaurante lotado. Todos olham. Eu paro. Respiro. São segundos sem fazer nada, sem precisar servir e atender. Segundos de um silêncio mais que bem-vindo. Agora, apenas o som da campainha da cozinha, avisando que algum prato está pronto. Mas todos pararam. Tudo parou. Isso pode esperar. O noivo fala. Ele treme, gagueja. É fofo. Tem piercing na orelha, um par de tênis nos pés e um amor que transcende o brilho daquele olhar direcionado à ela. Agradece a presença dos parentes, amigos. Agradece a ajuda da (fada) madrinha que organizou a festa. É tudo clichê. É tudo mais do mesmo. "Chega logo, 17 horas", desejo mentalmente. Ele se vira pra noiva, agora sua mulher, e a agradece. Agradece pela amizade, pelo respeito, por "ter me escolhido, entre tantas pessoas, pra te ver acordar todo dia", pela sensação maravilhosa de poder contar com alguém e ter isso ali, espontaneamente; agradece à vida por tê-la conhecido, pelo café nas noites em que passava acordado trabalhando, por uma existência tão essencial à vida, por ser responsável pelo início da sua família e por muitas outras graças.
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Carregar minhas próprias sacolas
"Ficar solteiro não é bom, mas também não é ruim. Abrem-se muitas possibilidades", disse um amigo, enquanto conversávamos sobre relacionamentos e o quanto não estamos preparados pra isso. Eu, por exemplo, acho mais prático ser solteira. Não tenho paciência de explicar ou justificar cada passo dado, me cansa rápido a obrigação de cuidar de cada um dos meus atos pra não magoar alguém e, o principal: não tenho nenhuma certeza sobre minhas vontades. Hoje eu gosto de você, mas amanhã provavelmente vá gostar mais, ou menos, ou não vá gostar. Nessas oscilações, alguém pode se magoar. É mais fácil ser sozinha e evitar tudo isso. Namorar requer um empenho que não tenho e, o principal, requer exclusividade a alguém. Por enquanto, uma pessoa só não me basta. Talvez, tenho pensado, isso acontece porque, até hoje, ninguém me bastou. Sempre faltou algo. Ao mesmo tempo, por mais incrível que possa parecer, me sinto completa quanto estou sozinha e posso aproveitar as milhares de oportunidades que a vida oferece a cada dia. Ao contrário do que acontece quando estou com alguém, e me sinto totalmente sufocada - e incompleta, com a sensação de que me falta algo (de fato, falta a minha liberdade). Sou covarde também, admito. Não tenho coragem (ou talvez disposição) pra encarar as consequências de um relacionamento, como as "obrigações". Gosto de considerar um namoro como um freela que me foi proposto. "Não topo, não senhor, pois não vou dar conta de cumprir o combinado". Simples. Sem choro.
Hoje, a melhor sensação do mundo é carregar minhas próprias sacolas do mercado. Caminhar na direção que eu quero, dormir no lado preferido da cama, ligar ou não ligar, sair ou não sair e, o mais bacana, mudar de opinião a qualquer hora. Sem consultar ninguém. Sem par-ou-ímpar nem dúvidas - a não ser as minhas.
Assinar:
Postagens (Atom)



