Ela tomava banho e, enquanto a água descia por cada parte do seu corpo, olhava pela pequena janela fechada e imaginava se ainda estaria calor lá fora. Na verdade, não queria saber. Cada segundo debaixo d'água era aproveitado, sugado, não queria sair dali. O chuveiro era bom, mas o que a segurava realmente eram a vergonha e o medo. Fechou os olhos, aproveitou aquela enxurrada forte nas costas e repassou mentalmente cada minuto e cada sensação sentidos momentos antes, quando se encontraram. Do outro lado da porta, no cômodo ao lado, ele a esperava. Porém, havia algo muito mais cruel à sua espera: a realidade. Sair dali significava voltar à vida normal, à invisibilidade, ao esconderijo. Sair dali significava um "adeus" que ela não queria pronunciar. Sair dali significava enfrentar o fato de que jamais seria escolhida, afinal, nem sequer chegou um dia a ser uma opção. O registro do chuveiro foi fechado e a passos lentos e pacientes ela secou o corpo, ainda arrepiado e marcado com cada toque dele. Voltou ao quarto e o encontrou sentado, à sua espera, de cabeça baixa e com o pensamento aparentemente longe. Essa cena era comum cada vez que se encontravam e ela não se importava com isso, desde que ele estivesse ali com ela integralmente, desde que se entregasse ao momento que tinham e viviam. Ele se levantou a tempo de vê-la soltar os longos cabelos e, instintivamente, deixou escapar alguma expressão feliz de surpresa, algo como um "uau". Um calor gostoso tomou conta do seu rosto e ela se limitou a ruborizar. Se apaixonou. Esse foi seu maior erro. No instante em que descobriu que estava apaixonada, soube: um último encontro já estava traçado, fadado a acontecer em breve. O cheiro dele ainda era presente quando ela chegou em casa e, em meio às lágrimas, percebeu que aquele havia sido o último encontro.

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