segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A vida sem você



Holly e Marina são duas amigas que cresceram juntas, na Londres dos anos 70, 80 e 90 em Me Without You (A vida sem você, 2001). Ainda adolescentes, juraram amizade, "Harina" para sempre. E durante todo o filme é isso: elas tentando manter essa promessa mútua, tentando se manter amigas, juntas, unidas. É difícil. Elas são completamente diferentes. Enquanto uma é romântica, tímida, generosa e discreta, a outra é egoísta, inconsequente, irresponsável e maldosa. Sim, maldosa. Isso me fez questionar por que duas pessoas tão diferentes insistem em ser amigas, até perceber que faz todo o sentido: uma encontra na outra aquilo que lhe falta.

Para Marina, Holly é uma das poucas referências de estabilidade, diante de uma vida cheia de brigas, drogas e auto-destruição. Holly, por sua vez, vive no mundo dos livros, frustrada com a mãe superprotetora e insegura diante da bonita e possessiva amiga. Para Marina, estar com Holly é o momento mais normal de sua vida, pacífico e protetor. Para Holly, estar com Marina é respirar a vida com altas doses de adrenalina, é experimentar o novo, é se arriscar. Mas com o tempo, essa amizade começa a se tornar uma armadilha, principalmente para Holly. Quando se convive tão de perto e por tanto tempo, é comum que surja entre duas pessoas um sentimento ruim, bem distante do padrão perfeito de amizade: a inveja. E é isso o que acontece em Me Without You. 

Desde criança, Holly é apaixonada por Nat, irmão de Marina. Embora a amiga saiba - e ela sabe, inclusive, que Nat também sente um grande carinho por Holly - não faz nada para ajudar. Ao contrário, dificulta ao máximo o contato entre os dois. Juro que tentei entender a atitude como egoísmo (ela não quer "perder" Holly) ou inveja (ela sente ciúmes de Nat e qualquer namorada dele seria odiada), mas não consigo. Em uma realidade paralela, esse seria o cenário perfeito, não? Sua melhor amiga e seu único irmão juntos. Acontece que os anos passam, elas crescem, e o amor de Holly por Nat só aumenta. É tão sofrido, tão doído. Enquanto ele viaja o mundo e se envolve com várias pessoas, Holly está ali, presa à Marina em uma relação sufocante. Uma relação que acaba se tornando uma armadilha para Holly. E Nat está lá, amando Holly em segredo, sem esperança. 


É fácil se identificar com Holly. 

A última cena do filme é como um tapa na cara, um soco no estômago. Holly decide ir embora e deixar Marina. É sua libertação. Marina, grávida, tenta convencê-la a ficar e Holly (finalmente) desabafa: "não quero mais ser 'nós. Não gosto do que sou com você".


E sim, não estou falando apenas do filme.

sábado, 13 de setembro de 2014

Tão breve e tão bom

Deitada, na cama, podia ver pela fresta na janela aberta uma luz amarelada indicando que, lá fora, o dia virava noite. Ao seu lado, ele dormia e respirava forte, mas sereno. Enquanto fitava aqueles olhos fechados em dois riscos finos e suaves, ela imaginava uma realidade diferente, na qual tivesse o superpoder de parar o tempo e congelar a paz que sentia, o calor confortante vindo da respiração dele, a sensação de estar exatamente onde queria. Tão longe de casa e tão perto de voltar, pensou. Maldito pensamento. Tentou distraí-lo. Cabelo, nuca, costas. Seus dedos passeavam por aquele corpo adormecido. Fechou os olhos também. Beijou a nuca dele, inspirou, expirou. Ele se mexeu. Acordou. A beijou. As duas órbitas brilhantes e doces, agora abertas, a olhavam. Se sentiu boba. Quanto tempo passou ali, imaginando suposições e realidades paralelas, quando poderia apenas aproveitar aquela realidade breve e perfeita que a vida havia lhe dado.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Sério, vida?

A vida é uma sujeita estranha. Às vezes te oferece mil e uma opções possíveis, todas furadas. Outras, te surpreende com opções perfeitas, e impossíveis. Mas não é como se ela fosse injusta, é só um pouco sacana.

Ela te dá um presente, mas avisa: "é só por dois dias". O que você faz, senão abraçar a alegria que tá batendo na porta e pedindo pra entrar?

Duro é quando a bendita sai e deixa aquele sabor doce na ponta da língua, na porta entreaberta, ainda quente, ainda latente. O gosto de quero mais.

Inevitavelmente, a cabeça pensa nas possibilidades que viriam se, por um acaso da danada da vida, a felicidade decidisse ficar.

Mas no fim, o que fica mesmo é: sério, vida?

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Quem te conhece não esquece e não supera jamais

Do alto do avião, na viagem de volta pra casa, vi uma Belo Horizonte minúscula, com carros de brinquedo e luzes de Natal. Só consegui pensar em como Nando Reis estava certo quando escreveu que "o mundo é bom".
Nos últimos quatro dias eu inalei história. Fiz parte dela. Fui a um futuro marcado por um passado de sofrimento, estive em praças onde hoje senhores e jovens se encontram, bebem e conversam, e onde "ontem" negros eram açoitados por serem negros e pobres. Admirei construções tão antigas quanto belas e tentei, em vão, decidir qual destas casas eu compraria, se pudesse. Imaginei se tudo era tão colorido antigamente. Me apaixonei por sotaques, cachorros, gatos, sabores, igrejas, ruas, pontes, pessoas. Vi a primeira e a última obra de Aleijadinho. Entrei em uma das primeiras casas de seu pai, com portas e paredes desgastadas pelo tempo e resistentes à história. A escada irregular de uma construção que parece ruir. O rangido do assoalho de madeira. Uma passagem secreta descoberta atrás da porta. Detalhes de um passado inimaginável.
Sentei no alto de um morro, deitei, olhei o céu azul e pensei "como o mundo é bom". Tirei fotografias impublicáveis. Como o interior de igrejas cobertas de ouro, o sabor de um doce de leite legítimo, a senhora equilibrando um machado na cabeça...

Aliás, minhas fotografias mais incríveis não puderam ser fotografadas. Estão em um álbum permanente e indestrutível chamado memória. 
E há quem diga que viajar é bom, mas não há nada como o nosso lar. Quero acreditar que essa pessoa nunca foi a Minas Gerais.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Doce meio azedo


Sentamos à mesa, esperamos o café. Seria um café dos bons: tinha bolo de morango. Sentei, me servi, perguntei se podia comer o morango do topo do bolo. Eu sempre pergunto se posso. "E você sempre gostou de morango", disse minha mãe.

Sim, eu sempre gostei de morango mesmo e comer o bolo feito a partir da fruta é voltar aos meus seis anos, é voltar a um tempo onde pedir o morango do topo do bolo era desnecessário, pois o morango do topo do bolo já era meu. 

"Quando você era pequena", ela continuou, "só queria coisas de morango. Roupas de morango, sapatos de morango, bala, pirulito, bolo. Tudo tinha que ser de morango ou cheirar a morango", falou. Sorri ao lembrar que, ainda hoje, separo as balinhas de goma vermelhas das amarelas, verdes e laranjas. Sorri ao lembrar que, ainda hoje, não troco um sorvete de morango por qualquer outro sabor. Sorri ao constatar que algumas coisas nunca mudam e que o doce meio azedo ainda me atrai muito. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Pessoas substitutas

Assisti "Tudo acontece em Elizabethtown" umas três vezes, mas só na terceira percebi que me encaixo nessa teoria de pessoas substitutas. Isso pode soar meio depreciativo, mas não é. Trata-se apenas de uma tendência a ser sempre uma opção aleatória, nunca a primeira, nunca o motivo. Eu simplesmente estava ali, porque A não estava, porque A não quis, porque A não foi legal e de alguma forma a pessoa pensou que eu poderia ser. Talvez eu tenha demorado pra perceber que sou uma dessas pessoas substitutas. Talvez isso explique minha dificuldade em entender algumas coisas (que agora começam a fazer mais sentido). Por exemplo, o fato de não ser escolhida por alguém.
Sempre tentei procurar um motivo, um defeito em mim. Afinal, é obviamente mais fácil me menosprezar do que entender a realidade: a pessoa tem o direito de escolher (e quebrar a cara, por que não?). É muito egoísmo ficar mal porque alguém não te escolheu - entre tantas pessoas no mundo. "Mas ela está fazendo a escolha errada!", errada por quê? Só porque não é você?

Antes de esperar que você seja escolhida (o), tente pensar que, talvez, exista no mundo uma pessoa substituta como você. Que não foi a primeira opção de alguém, como você, mas será a sua primeira opção, assim como você será a dela.



"- Quer ouvir minha teoria? 
- Claro. 
- Você e eu temos um talento especial, percebi isso logo de cara. 
- Me conta. 
- Nós somos as pessoas substitutas. 
- Os substitutos... 
- Fui uma substituta a vida toda. Não sou uma "Ellen", nunca quis ser uma Ellen. Também não sou uma Cindy, embora os Chucks me amem. 
- Tenho certeza que sim. 
- Gosto de ficar sozinha. Quer dizer, estou com um cara casado com a carreira acadêmica. Raramente o vejo, sou a substituta lá. Gosto disso assim, é muito menos pressão. 
- Não estou acostumado a garotas como você. 
- É porque sou única. 
- Não precisa fazer piada. Gosto de você sem as piadas."

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Uma carta para mim mesma 10 anos atrás

Ei, menina, sou eu. 

Eu sou você, 10 anos depois. Sou o resultado de tudo o que você fez até então (e pode-se dizer que esse resultado é bom). Não quero mudar nada, estamos bem. Ainda assim, acho importante que você saiba de algumas coisas para viver melhor e mais tranquila até aqui.



1. Para de sofrer. Sério. 13 anos e chorando desse jeito, todo dia, toda hora? Não vale a pena, nadinha. Com tanta lágrima derramada sua testa vai ficar cheia de marcas de expressão aos 23 (sério!). Eu sei que tudo parece um caos e a ponto de desmoronar em cima de você, mas acredite: essa sensação vai durar muito tempo ainda e você precisa conviver com isso. 
2. Sabe essa menina linda e de cabelos cacheados que acabou de nascer? Sim, vocês terão uma ligação eterna, ela vai se tornar uma das pessoas mais importantes da sua vida. Em muitas ocasiões você vai pensar em se afastar dela, mas não faça isso. Ela precisa de você, vai te seguir em tudo e te usar como exemplo. Lembre-se disso cada vez que ela estragar uma maquiagem sua ou fazer manha no mercado.
3. Não seja tão tímida. Acredite: você vai perder muitas oportunidades de ser feliz por conta dessa timidez. Mais tarde, vai descobrir que sua grande vocação é a comunicação (não dê risada) e vai desenvolver muito essa vontade de falar e se expressar (que eu sei que fica aí, conflitando nessa cabecinha de pudim).
4. Não se martirize tanto ao mudar de emprego ou de vida. Seu coração vai dizer "faça" e não pense duas vezes em segui-lo. Ele vai te levar a algumas roubadas também, mas elas serão importantes. É a vida.
5. Sabe essa sua aversão por Internet? Parece incrível, mas ela vai se transformar em um dos seus maiores vícios. Daqui alguns vão existir coisas como redes sociais e smartphone (um telefone celular menor e com acesso à Internet) e isso fará parte da sua vida 24 horas por dia. Eu deveria te dizer "vá com calma, use menos Internet, não gaste tanto tempo com isso", mas sei que não adianta. Curiosa do jeito que é esse conselho será inútil. Então só me resta dizer: assim que der faça logo um Orkut.
6. Nenhuma dessas pessoas que vai conhecer e gostar ao longo da vida será sua amiga ou amigo para sempre. Infelizmente. Elas vão passar, deixar algo bom (ou ruim) e vão sair, desaparecer. Não é ruim, mas há grandes chances de você sofrer um bocado com isso. Mais tarde vai chegar à conclusão de que a vida é assim, mas acho importante que saiba disso agora para aproveitar ao máximo o tempo com cada uma delas.
7. E não, seu futuro não está em Joinville. Uma cidade fria e bem próxima será seu novo lar daqui dois anos. Você vai se surpreender com ela e amá-la. Por isso, vai se afastar de Joinville cada vez mais e estou aqui para te pedir que não faça isso. Muita gente vai sentir a tua falta e te cobrar mais tarde. Nunca esqueça de onde você veio e de tudo o que está passando agora.  
8. POR FAVOR NÃO PINTE O CABELO DE VERMELHO NEM DE LOIRO. Você não sabe como vai se arrepender disso anos depois! Fica assim, natural. Mas está autorizada a cortar. Mudanças são boas, você gosta e vai sempre gostar.
9. Eu sei que agora parece impossível (sua dramática!), mas você vai sim se apaixonar um dia e descobrir o amor (e será com homem, não se preocupe...rs). Mas não vai ficar com ele para sempre, ao contrário do que possa vir a imaginar. Ainda assim, ele será extremamente importante na sua vida. Vai te ensinar milhares de coisas e te mostrar outras tantas. Você vai ser muito feliz com ele, mas um dia ele sairá da sua vida porque ambos não estarão mais felizes. Não se desespere, a vida depois disso vai ser muito gostosa.
10. Sinceridade será uma das suas principais características aos 23, mas ela também vai tornar caótica uma situação que poderia ser simples. Portanto, por mais que a consciência te pese prefira mentir ou omitir duas ou três coisinhas quando perceber que isso pode magoar alguém que goste muito. Será melhor.
11. Peça mais perdão, diga mais "eu te amo" e esteja preparada para dar adeus a algumas pessoas imprescindíveis na sua vida. Algumas vão partir, mas outras tantas estarão sempre com você (mesmo imaginando o contrário). 
12. E se eu pudesse te dar um último conselho seria: seja paciente. Muitas pessoas te dirão "seja paciente, tenha paciência, calma" e você ficará irritada com todas elas, mas elas têm razão. Com o tempo tudo vai se ajeitar, mas só com o tempo. Não adianta sofrer e esperar tanto, tudo vai ser diferente daquilo que você imagina (mas será bom, acredite!).

Um beijo do seu eu aos 23 anos, mas com as mesmas covinhas nas bochechas. :)

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Seguir em frente


"Eu não sabia que seria tão difícil encontrar alguém como você", ele disse, pouco depois que terminaram, em um dos últimos e-mails que trocaram. A frase estava ali, naquela segunda-feira estranha, entre ela e a tela do computador. Uma angústia tomou conta, invadiu cada nervo do seu corpo e se desfez em gotas quentes e salgadas, que não paravam de cair. Por que chorava? Faz tanto tempo! É tão normal. Não é? Ela sabia, em um interior lúcido e coerente escondido atrás de uma cortina de drama e carência. Ela sabia que ele tinha esse direito e, principalmente: que ele merecia isso. Merecia seguir em frente, ser feliz. Merecia viver novamente o amor. Ainda assim, saber que ele finalmente seguiu em frente também doía lá dentro, no fundo do seu egoísmo. Saber que ele escolheu uma nova pessoa para estar ao seu lado, dentre tantas que existem no mundo, foi como um soco no estômago. Saber que ele a encontrou, antes que você pudesse encontrar alguém também. É tão difícil. Imaginar a conexão forte e intensa que os uniu. Constatar que ele encontrou o que ela procura desde que o deixou. E isso a fez pensar no quão maravilhosa é esta nova pessoa. A fez pensar que agora eles são um daqueles casais andando de mãos dadas na rua. Casais que ela observa sempre. Que ela inveja. Como seria namorar de novo? Qual era o sabor do amor? Ela já não lembrava mais e torceu, enquanto secava as lágrimas no vestido, para que a vida levasse suas expectativas embora. Estava totalmente pronta para seguir em frente. Do zero. De novo.