Do alto do avião, na viagem de volta pra casa, vi uma Belo Horizonte minúscula, com carros de brinquedo e luzes de Natal. Só consegui pensar em como Nando Reis estava certo quando escreveu que "o mundo é bom".
Nos últimos quatro dias eu inalei história. Fiz parte dela. Fui a um futuro marcado por um passado de sofrimento, estive em praças onde hoje senhores e jovens se encontram, bebem e conversam, e onde "ontem" negros eram açoitados por serem negros e pobres. Admirei construções tão antigas quanto belas e tentei, em vão, decidir qual destas casas eu compraria, se pudesse. Imaginei se tudo era tão colorido antigamente. Me apaixonei por sotaques, cachorros, gatos, sabores, igrejas, ruas, pontes, pessoas. Vi a primeira e a última obra de Aleijadinho. Entrei em uma das primeiras casas de seu pai, com portas e paredes desgastadas pelo tempo e resistentes à história. A escada irregular de uma construção que parece ruir. O rangido do assoalho de madeira. Uma passagem secreta descoberta atrás da porta. Detalhes de um passado inimaginável.
Sentei no alto de um morro, deitei, olhei o céu azul e pensei "como o mundo é bom". Tirei fotografias impublicáveis. Como o interior de igrejas cobertas de ouro, o sabor de um doce de leite legítimo, a senhora equilibrando um machado na cabeça...
Aliás, minhas fotografias mais incríveis não puderam ser fotografadas. Estão em um álbum permanente e indestrutível chamado memória.
E há quem diga que viajar é bom, mas não há nada como o nosso lar. Quero acreditar que essa pessoa nunca foi a Minas Gerais.