Deitada, na cama, podia ver pela fresta na janela aberta uma luz amarelada indicando que, lá fora, o dia virava noite. Ao seu lado, ele dormia e respirava forte, mas sereno. Enquanto fitava aqueles olhos fechados em dois riscos finos e suaves, ela imaginava uma realidade diferente, na qual tivesse o superpoder de parar o tempo e congelar a paz que sentia, o calor confortante vindo da respiração dele, a sensação de estar exatamente onde queria. Tão longe de casa e tão perto de voltar, pensou. Maldito pensamento. Tentou distraí-lo. Cabelo, nuca, costas. Seus dedos passeavam por aquele corpo adormecido. Fechou os olhos também. Beijou a nuca dele, inspirou, expirou. Ele se mexeu. Acordou. A beijou. As duas órbitas brilhantes e doces, agora abertas, a olhavam. Se sentiu boba. Quanto tempo passou ali, imaginando suposições e realidades paralelas, quando poderia apenas aproveitar aquela realidade breve e perfeita que a vida havia lhe dado.

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