quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Mergulhar de cabeça é perigoso

O processo de conhecer alguém é sempre complicado, frágil, "pisando em ovos", como dizem. E, mesmo depois de consecutivas decepções, você resolve confiar, abrir sua vida, sua casa, seus amigos, suas preferências, seus sentimentos. Mas a outra pessoa não mergulha tão fundo assim, fica no raso, na beirada, observando você se afogar naquele marzão de sentimento. E mostra quem realmente é, depois que o período de teste termina e as máscaras construídas por interesses caem. E te decepciona, te magoa, tão fundo quanto aquele mergulho solitário. E tanto quanto todas aquelas outras decepções consecutivas e acumuladas. "Mais uma", você pensa. E fica o sentimento de que todo o processo não vale a pena. E que esse é um looping eterno.


Um comentário:

Anônimo disse...

Ele acabara de receber alta de seu último percalço. 3 anos como mergulhador de alta profundidade foram duros com sua saúde, mas se sentia bem como há muito tempo. Ela possuía um barco bastante novo, que chamava a atenção por um conserto evidentemente recente em sua proa. Não pediu nem o currículo dele. O chamou imediatamente para zarpar, pois havia sabia de um tesouro submerso em alto mar e tinha pressa. Ele não entendera direito. Não sabia se o tesouro era verdadeiro ou se o barco tinha capacidade para tanto. Talvez ela só quisesse aulas de mergulho ou um guia pelo litoral? A vontade de navegar, ter em mãos um tesouro e também o brilho nos olhos dela o convenceram a partir. Era um dia ótimo, fazia tempo bom e o mar era calmo.

Mal saíram ao mar aberto, ela empurrou o manete do acelerador para a posição de "full". Ele se perguntava se haviam provisões o suficiente para o retorno seguro, pois seguir em velocidade de cruzeiro economizaria razoavelmente o combustível e em caso de qualquer tormenta seria possível fazer meia-volta. "Esqueça, estamos indo a lugar nenhum e vamos chegar lá bem rápido", pensava ele.

No meio do caminho, ela evidenciou que apesar de 5 anos de saltos ornamentais e natação olímpica, queria partir para a água salgada. Tentara algumas travessias longas e se afogou. Acreditava que tinha aprendido o suficiente para não beber água outra vez e que não haviam motivos para não arriscar. Ele lembrou de que quando jovem também era audacioso e destemido, mas não sentia saudades desse tempo pois o mar lhe havia imposto duras penas e por isso o respeitava.

Ele verificava seu equipamento: cilindros em ordem, manômetros em ordem. Parecia tudo certo, mas lhe corria um frio na espinha. Não sabia o quê exatamente causava isso: seria a ansiedade em voltar outra vez às profundezas? Lembranças da água gelada? Ou seria a responsabilidade de partir às cegas para uma aventura com alguém que aparentava pouca noção de como o trabalho em equipe faria toda a diferença nessa expedição?

O motor parou, eles haviam chegado ao local. Ouviu algo cair na água. Pela escotilha, viu que ela se banhava no mar. Com o calor que fazia um banho de mar não faria mal antes do mergulho. Ele já estava pronto, mas ela recusava a vestir a roupa de neoprene. Ele embora surpreso, pacientemente explicou que nas profundezas não seria suportável o risco de hipotermia, entre tantos outros. Relutante, ela resolveu trajar-se. Neste momento ele realmente sentiu medo dela. Ele tentou imaginar o que passava na cabeça dela: talvez quisesse extinguir os limites da piscina e se sentir verdadeiramente livre, embora pudesse pagar com a vida por essa liberdade.

Foram descendo. Fazia tempo que não mergulhava, mas sentia-se na obrigação de dar o exemplo a ela, afinal ela partilharia com um desconhecido o tesouro. Nos poucos metros que já haviam descido, a água ficou muito turva. Não haviam ensaiado os sinais e ela não havia checado seu manômetro: seu cilindro não estava totalmente carregado. A pressão fazia os olhos e os ouvidos dele doer e precisava agir rápido. Ele não sabia quanto faltava para chegarem ao tal tesouro. Ele não sabia nem se o tal tesouro existia, se não era apenas uma história que ela contava toda vez que queria aventura. Ele tentou gesticular a ela de que era mais prudente voltar a superfície. Ela não queria saber. Achava que o tesouro estava próximo e não voltaria de mãos vazias.

Ele, numa manobra arriscada, preferiu trocar de cilindro com ela. Como ela havia guardado para sí só todos os detalhes da expedição e parecia confiante no que estava fazendo, ele preferiu voltar à superfície. Aguardou um pouco o retorno dela, pegou o bote e voltou sozinho à praia.

Dias depois, buscou notícias dela. Imaginava que havia contratado outro guia, afinal existem tantos outros por aí. Ouviu boatos de que ela havia sido encontrada desacordada na praia, com uma moeda de ouro em sua mão. Parece que se recuperava no hospital, mas dizia que lhe haviam abandonado à sorte e roubado seu tesouro.