Quando eu era criança, imaginava um mundo ideal. Nele, não existiria dinheiro, todos teriam acesso a frutas, livros e roupas - itens que eu considerava de primeira necessidade. Ninguém morreria por falta de cuidados, nenhuma criança passaria fome, frio ou falta de amor. Mas não existiriam moedas de troca, tudo seria feito por pura bondade e compaixão, sem vínculo com religião, política ou qualquer outra forma de poder.
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Em uma conversa recente, soltei essa lembrança a um amigo. Ele disse que isso era uma espécie de comunismo. Rimos, mas no fundo, entristeci.
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É primeiro de março de 2017. Estou de volta à minha casa, depois de uma viagem de Carnaval bem incomum. Mato as saudades dos gatos. Troco a água deles, coloco ração, ando pela casa a catar coisas espalhadas pelo chão, começo a desfazer a mala. Roupas sujas vão pra máquina, as limpas, para o armário. Quando uma das bolsas se esvazia, caio num choro forte. Sento na cama, tiro os óculos e deixo as lágrimas virem. Não sei se já senti algo assim, uma emoção que não se sabe de onde vem, uma tristeza absurda. Me acabo de chorar. E deixo esse momento se desenrolar.
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Alguns dias depois, que não lembro ao certo qual número do calendário era, é como se um lampejo de clareza pousasse sobre mim e eu entendesse todo aquele choro. Um choro de frustração e revolta vindo de um "sentir-se enganada". Meu Carnaval foi uma sucessão de dias com pequenas-grandes emoções. Descobertas gigantescas. Reafirmações importantes. Ressignificações profundas. E, de repente, é como se a venda que me cegava há 26 anos fosse arrancada de forma violenta e eu enxergasse o que realmente importa nessa vida, e descobrisse que meu mundo imaginário existe e fica entre a cidade em que eu nasci e a cidade em que vivo.
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Em Garuva (SC), há uma montanha com três cristas, chamada Monte Crista. Há muitos anos, José Scussel decidiu criar em torno dela o mundo com o qual ele sonhava, com novas propostas de vida, que "fizesse a existência humana valer a pena", onde pudesse "se ocupar da essência e menos da aparência". O "ambiente Monte Crista", uma associação entre a pousada, a montanha e a comunidade que se criou paralela ao monte, passou a atrair também moradores. Entre eles, meu pai e minha tia, irmã dele. Eles moram lá há quase uma década, senão mais, mas eu nunca os visitei. Durante o Carnaval e o réveillon a pousada promove um encontro chamado Construindo o Mundo que Queremos. Neste ano, também à convite de uma amiga que respira essa experiência há anos, resolvi participar e ter um feriado diferente. Hoje eu percebo que se demorei tanto pra conhecer o Monte Crista foi porque antes disso não estava preparada para o que viria a conhecer.
Antes de chegar lá, porém, teve dias em que custei a dormir de ansiedade em descobrir como tudo funcionava. Meu passatempo diário era tentar imaginar se minhas expectativas seriam atendidas, qual talento eu ofertaria (explico mais além) e se não ficaria entediada naqueles cinco dias - sem internet, sem informação do mundo "lá fora". Ao se inscrever, você recebe orientações sobre o que levar pra lá. Repelente, galocha, lanterna, toalha pra se secar depois do rio, e talentos.
Talento não é saber cantar ou dançar. Talento, lá, é tudo aquilo que você sabe e, sobretudo, gosta de fazer e ficaria feliz em repassar pra outro. Talento pode ser ensinar yoga, tai chi chuan, ritos tibetanos, fazer uma massagem relaxante, ler mapa astral ou numerologia - pra citar alguns dos talentos que recebi naqueles dias. Pode ser ajudar a preparar o jantar na pousada, conversar sobre beleza feminina natural, contar sobre a sua experiência pessoal em uma viagem de bicicleta à Santiago de Compostela, falar sobre as vantagens de usar lâmpadas LED ou promover uma oficina de bonecas de guardanapos - talentos ofertados por lá também. No primeiro dia são conhecidos os talentos de cada um, mas você não é obrigado a ofertá-los. Na verdade, você não é obrigado a nada. Nunca. Nem a participar das vivências. Nem a interagir. Pode se conectar no Wifi (que agora existe), se quiser. Ou pode se propor a viver algo diferente e interagir com a programação, as atividades e as pessoas.
Como disse na cerimônia de encerramento do encontro - momento em que cada um, quando recebe um bastão, é convidado a contar o que sentiu naqueles dias - eu imaginava algo completamente diferente e, ao mesmo tempo, exatamente igual àquilo. Não existem hippies desempregados e que vivem de sol. Os personagens desse movimento real são psicólogos, médicos, astrólogos, biomédicos, cientistas, dançarinos, professores em grandes universidades, funcionários públicos, artistas, artesãos... Grande parte possui graduação e o último telefone da moda. São budistas, espíritas, umbandistas... Cada qual temente ao seu Deus. Não existe julgamento, nem olhares críticos, picuinhas, risinhos maldosos sobre a roupa da amiga. Cada um é o que quer ser e todo mundo é feliz por isso. Gratidão é a palavra mais usada e vem sempre acompanhada de um sorriso sincero. Não demora muito e você, que não lembra de ter dito "gratidão" alguma vez na vida, está repetindo "gratidão gratidão gratidão". "Quando você agradece, deixa o caminho livre para as coisas boas virem", disse minha tia.
Nesse lugar, redescobri o significado de gratidão.
Nesse lugar, dancei músicas desconhecidas com desconhecidos.
Nesse lugar, senti dores na arcada dentária de tanto rir durante essas danças.
Nesse lugar, abracei e beijei homens, mulheres e crianças e tive que olhar fundo nos olhos deles por um tempo que pareceu a eternidade. A mais difícil, incômoda e intensa das vivências.
Nesse lugar, desbloqueei traumas e descobri que sei nadar.
Nesse lugar, me encontrei nas trilhas dentro da mata e num silêncio aconchegante e confortável.
Nesse lugar, descobri que minha alma é antiga e nesta vida tem uma missão linda e leve: amar.
E que construir um mundo mais justo, igualitário, cheio de amor (amor pleno!), compaixão, respeito e alegria é possível sim. Mas só por quem se propor a sentir e viver essa experiência, esse "retorno ao paraíso perdido", como José bem definiu.
