- tu viu meu jardim, que bonito que tá?
- vi vó. bem bonito.
- esse ano deu muita rosa bonita, tem muda da amarela, da vermelha, da laranja...
- eu vi, e tão todas abertas, né?
- é, mas tá cheio de botão também.
- então logo tem mais flor ainda, que beleza.
- ah, logo tem.
- e aí, minha filha, como vocês tão?
- ah vó, difícil.
- por quê?
- ah, ele perguntou uma coisa, eu falei, ele não gostou.
- e por que tu falou?
- porque não quero mentir.
- mas às vezes não faz mal mentir um pouquinho.
- tu não tem micro-ondas?
- não, vó.
- por quê?
- porque não precisa.
- e como esquenta a comida?
- ah, na panela.
- e suja tudo a panela só pra esquentar uma comida?
- é ué. de boa.
[20 dias depois chega um micro-ondas na minha casa]
- pois é, vó, a gente tá meio namorando.
- e tu gosta dele?
- gosto.
- então tá bom, é isso que importa.
- vem cá ver meu jardim, tá a coisa mais linda.
- eu vi, vó, tá mesmo.
[sendo carregada até o jardim]
- teu tio vai limpar esse lado aqui pra mim. quero me livrar desses pé de acerola, ui, só dá sujeira.
- mas acerola é tão bom!
- affffff.
- vó, mas que hospital mara. parece até de filme,
- pois é, né, minha filha. se tivesse em Joinville já tinha morrido.
- nossa, muito bom aqui. tem até tv.
- é, mas essa praga só pega Globo.
- ah lá, vó, o vô Angelo tá namorando. quando a vó vai namorar também?
- af guria, deixa de besteira.
- ué, o que que tem? todo mundo namora hoje.
- ahhhhhh para de besteira.
- vai que a vó acha um gatão, hein hein.
- só tive um amor nessa vida. e durou quase 50 anos.
- por que que a vó não vai nesses grupos de idoso também?
- porque não sou velha.
- ah, vó, acho que não vai dar certo. melhor cada um ir prum canto.
- acho engraçado.
- o quê?
- vocês não têm paciência de consertar nada.
[falando com os enfermeiros]
- essa minha neta é jornalista lá em Curitiba.
- hahaha vó.
- ela vai colocar lá no jornal sobre vocês.
- vó...
- falei pra ela que fui muito bem atendida, ela vai colocar.
- ô vó...
- vai ser a Fátima Bernardes um dia, vocês vão ver...
- ai, vó.
[cochichando]
- vó, tô indo.
- tá indo?
- sim, tô indo.
- então vai com deus, minha filha.
- vou. até mais, né?
[nosso último encontro]
já sinto falta das suas flores, da sua sabedoria, da sua companhia tão agradável. um dia quem sabe a gente se encontra e você me conta tudo aquilo que ficou faltando contar, que é tanto.

Um comentário:
Vó Acedina...
Quando a Greyci te encontrar novamente e se eu tiver pelas mesmas bandas..
Descongela um pouco da acerola pra fazer suco pra mim também, certo?
Beijo carinhoso pra Sra!
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