"ela não pode ver meu rosto assim", pensou, a caminho do hospital.
era dia de visita, cheio de ansiedade.
olhava pra trás à procura do irmão. nada.
"não acredito que ele vai se atrasar".
depois de trancar a bolsa no armário e fechá-lo com o cadeado lembrou que dali alguns dias ela receberia alta.
sorriu.
o ponteiro maior do relógio na parede se aproximava do número 15.
a porta da entrada de visitas do hospital se abriu e nada do irmão.
se deixou ficar pra trás, na esperança de que ele chegasse logo e pudessem entrar juntos.
o ponteiro avançava. chegava ao 20.
"ela já deve estar nos procurando".
entrou sozinha.
cumprimentou com a cabeça todos aqueles pacientes no pátio, também à espera de visitas que, ela sabia, não viriam.
"onde ela está? achou que eu não vinha, ficou triste e foi pra dentro? cadê"?
o sorriso dá lugar à preocupação.
uma mão acenando.
abaixo do braço esticado, um sorriso banguela a espera.
- mãe! ah, mãe!
sentou no banco ao seu lado e chorou. chorou no ombro de quem havia consolado nos últimos quase 40 dias.
e mesmo sem saber por que a filha chorava, a mãe também chorou.
- eu te amo, minha filha.
- eu também te amo, mãe.
quinta-feira, 31 de maio de 2018
sexta-feira, 12 de janeiro de 2018
We could light a whole city
não sou a mulher mais ligada ao movimento feminista que conheço, mas conheço muitas que são, algumas delas, boas amigas.e conviver e conversar com elas, junto a um amadurecimento natural, me faz perceber e entender algumas coisinhas.
já teve cara que terminou comigo porque fiz tatuagem, "achei que você fosse parar", ele disse.
já teve cara que, ao me encontrar, olhava minhas unhas pra se certificar de que eu as havia pintado.
já teve cara que me pediu pra não conversar com outros caras, porque ele tinha medo de que eu gostasse de algum deles.
já teve cara que ficou de cara porque eu não queria beber mais.
já teve cara que se irritou com alguma selfie minha e os likes que ela recebeu.
todas essas são formas (nada) veladas de exercer uma arbitrariedade sobre mim, sobre quem eu era e quem eu sou. foram formas de tentar me encaixar nas visões que eles tinham de par ideal. formas opressoras, sim, de me fazer sentir mal, de me fazer questionar, de me fazer olhar pro próprio umbigo e me sentir um lixo.
e, claro, sempre teve uma Greyci pra aceitar cada manifesto de submissão e permitir deixar morrer mais um pedaço de Greyci, se sentir pela metade.
mas quando a gente desperta, rapaz, é melhor desviar. porque completa a gente ilumina a cidade. a gente bota fogo em tudo.
Assinar:
Postagens (Atom)
